Laxante

Ele já estava irritado. Irritado era eufemismo. Puto. Estava possesso. Indignado. Já não havia mais sinônimo para expressar o quanto ele tinha raiva. Aquela situação já tinha fugido ao controle na empresa. Foi convocada então uma reunião, que se fazia muito necessária.

Explicou que toda vez que levava sua comida, seu lanche, para a geladeira da empresa, ela era roubada. Isso não tinha acontecido uma, nem duas, nem três vezes. Já chegava ao limite do jocoso. Um dos gerentes se exaltou. Aos berros, fez o discurso de que “quem rouba comida, rouba uma moeda e rouba milhões.” Era bonito, mas pouco eficiente.

A situação não se resolvia. Já estava ficando desmotivado no trabalho. Estava inclusive procurando um emprego novo. Quem rouba comida, puxa tapete. É o tipo de coisa que não existe. E tentavam culpar gente humilde do trabalho, num claro preconceito. Decidiu falar com seu chefe. Ia pedir o boné.

O chefe escutou atentamente. Ficou revoltado, pois perderia um bom funcionário. Ofereceu uma solução. Contaria com a conviência e a cumplicidade dele. Ele topou. Pediu pra que ele chegasse cedo no dia seguinte e trouxesse o lanche, de preferência com patê ou manteiga. Assim foi feito.

No dia seguinte, chegou bem cedo. O chefe também. Quando trouxe o lanche e mostrou, seu parceiro no crime não se fez de rogado: Abriu o sanduíche e pingou gotas e mais gotas de laxante. Pediu para que ele colocasse o lanche na geladeira. Missão cumprida.

Não parou por aí. Após tocar o primeiro sinal do horário de ponto, o chefe levantou discretamente. Foi trancando todas as portas dos banheiros da firma e levando a chave. Deixou aberto apenas o banheiro externo. Quando deu o horário aproximado do lanche, ele foi à geladeira. O larápio tinha agido, a comida havia sumido.

Seu chefe o ligou no celular. O fumódromo ficava ao lado do banheiro externo. Bastaram apenas alguns minutos. Nisso, um burburinho se escuta dentro da repartição. O diretor ligou perguntando quem tinha trancado os banheiros. Nenhum pio. O murmúrio se transformou no estrondo de portas tentando ser arrombadas chegava ao limite entre o patético e hilário.

Ele e seu comparsa saboreavam um cigarro enquanto viam aquele gerente, que fazia discurso de moral, correr desbaratadamente em direção ao banheiro externo, na última esperança de chegar ileso. Não deu tempo. A quantidade de laxante era grande, e ele se evacuou inteiro.

No dia seguinte, era o assunto do momento: O gerente entregou sua carta de demissão, não tinha mais clima pra ficar na empresa. Enquanto comia o lanche, ele ainda escutou do seu chefe: “Quem rouba um sanduíche pode roubar uma moeda, pode roubar milhões, pode fazer discurso vazio e sair todo cagado”. Saboreou a última mordida antes de gargalhar.

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