Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XII – A Toalha

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

– Cara, ela é linda.
– Sim, é linda mesmo.
– Estou cortejando fortemente, preciso sair com essa mulher.
– Bicho, você não vai conseguir.
– Claro que vou conseguir, como não vou?
– Ela é loira, olhos verdes, parece a Michelle Pfeiffer e você, embora seja um rapaz ajeitado, bem… é você.
[gargalhadas]
– Isso é coisa que se diz de um amigo?! Vocês deveriam me apoiar, serem camaradas, apostar no meu potencial.
– Olha, eu não duvidaria dele não. Já fisgou altas gatas.
– E também já ficou com meninas não tão bonitas.
– Amigo, não é só a beleza que traz felicidade, é todo um conjunto. Na artilharia do amor, não dá pra ficar escolhendo. Pelé só fez gol de bicicleta nessa vida?!
– Sejamos realistas, você está mais para Dadá Maravilha do que pra Pelé. Às vezes até Obina.
– É verdade, mas ainda assim é preciso ser feliz. Esse negócio de só querer namorar musa é palhaçada. O importante estar bem, à vontade, com uma mulher com M maiúsculo ao lado.
– E outra coisa, esse discurso lembra discurso de coluna de jornal ou programa de rádio de notícias. Você já foi mais canalha do que isso nesta vida. Essa cafajestagem estilo paz e amor é uma inovação.
– É desse jeito que eu penso, cara. Não tenho grana, nem tenho a lataria bonita, tenho que valorizar esses aspectos da vida para poder ser feliz.
– Hum, filósofo. Entendo. Mas conte-me mais, você vai mesmo investir na loirona? Porque é um golaço, hein?
– Vou. Ela é gente finíssima, gatíssima e merece. Mesmo que eu não namore com ela, serão bons momentos.
– Essa eu quero ver. Sei do seu histórico, mas sinceramente, eu duvido que você consiga.
– Mas que calhorda!
– Calhorda, não. Realista.

* * *

Durante duas semanas, o investimento na menina foi intenso. Devagar e sempre, conquistando e cortejando, aos poucos. Ela foi seduzindo e sendo seduzida. Cedendo aos gracejos. A verdade inexorável é que não adianta ser grosseiro com mulher. A gentileza e a perspicácia sempre vão ganhar da ignorância. Não é força, é jeito.

Outra das grandes verdades é que o poder de escolha do início de qualquer relacionamento, seja fugaz ou duradouro, é de uma mulher. Amor é essencialmente matriarcal. Qualquer argumento em contrário é mera ilusão. Gostamos de nos iludir, mas há horas em que o jogo é jogado e a verdade aparece. Alea Jacta Est.

O resultado do investimento desembocou num cinema, um almoço, uma matada no trabalho. Marcaram um motel numa tarde de sexta-feira. E foi um encontro demolidor, uma pororoca, consonantal. O negócio encaixou. E deitados na cama, embalaram a conversa:

– Meus amigos não acreditaram que eu fosse te conquistar.
– Bem, a gente dá choque há meses, era difícil não ficarmos juntos.
– Pois é, mas sabe como é, eles não valorizam.
– Enfim. Eu adorei. Quero repetir mais vezes.
– Pois vamos repetir. Muitas vezes.
– Você vai à festa da faculdade hoje?
– Vou.
– Vamos juntos?
– Sim, claro.
– Inclusive vou dar uma sacaneada nos seus amigos?
– Vai? Excelente! Posso sugerir algo?
– Claro que vou. O que você me sugere?

E então combinam a doce confirmação do sucesso do encontro.

* * *

Chega a hora da festa e os canalhas estão reunidos no bar de sempre, atendidos pelo garçom de sempre e tomando a cerveja de sempre. Eles chegam juntos, de mãos dadas. Todos se entreolham.

– Hummmmmmmmmmmmmmmm.
– Ei, vem cá. Ela quer falar contigo.
– Oi gatona, tudo bem? Vocês fazem um bonito casal.
[ela abre a bolsa]
[pega a toalha do motel]
[entrega]
– Foi uma tarde excelente.
[gargalham]
– Mas que filho da puta!
– Agora nos pague uma cerveja. Falei pra você não duvidar da gente.

Foi uma grande festa. Eles ainda saíram juntos por um tempo, depois se tornaram grandes amigos. E essa história entrou pro anedotário dos cafajestes. A toalha ficou guardada por anos, até que…

… um dia, os amigos iam para um casamento de outro dos amigos e se reuniram na casa daquele que ficou com a toalha, que ficava na região central da cidade. Com anos de amizade, a mãe dele tinha virado a mãe de todos. Usaram as toalhas e colocaram pra secar, até que a mãe dele, por acaso, passou pela copa enquanto eles se arrumavam pro casório. Quando ela checou o varal…

* * *

– Meu filho, você anda roubando toalha de motel?
– Mãe, deixa eu te explicar. Não fui eu, é que…
– Não tem que explicar nada! Sabe quem é o dono desse motel? É o Manolito! O Manolito é amigo da família! Como eu vou explicar se um dia ele vem aqui e tem uma toalha de motel roubada na minha casa!
– Mas mãe…
– Tome vergonha, meu filho! Não te criei pra isso, roubar toalhas de motel! Graças a Deus temos condições. Isso é uma vergonha.
– Cara, que vergonha, roubando toalha de motel… lamentável…
– Porra, não faz isso não. Foi você quem pegou a toalha, diz pra minha mãe, cara. Deixa de ser filho da puta.
– Ei, só porque sua mãe tá brigando contigo, tu vai xingar a minha mãe? Mancada.

[gargalham]

– Isso é verdade? Meu filho não roubou a toalha?
– Tia, isso é uma longa história…

__________

O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

O capítulo XI dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Consórcio”, está aqui

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4 opiniões sobre “Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XII – A Toalha

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