Carrossel de Emoções

Olhar pra trás e se ver criança é uma das melhores sensações que se pode ter. A nostalgia amarelada que vem junto com as lembranças, jogando bola, soltando pipa, rodando pião, pulando muro. Recordar dos amigos e das traquinagens, sempre com um sorriso sapeca no rosto.

Olhar para os lados e relembrar dos amigos. Onde estão? Pra onde foram? Daqueles um milhão de amigos, sobraram os que se contam nos dedos da mão, não por raiva ou entrevero, mas porque os ventos da vida sopram em tantas direções e velocidades que as pessoas se perdem. E repousam nos causos e na saudade.

Vieram os novos, outras histórias, outros caminhos. Que andam de mãos dadas, ou que passam como brisa. Que descem como vodka rascante ou que flanam como um bom vinho do Porto. E tudo se mescla e gera uma nova perspectiva.

Olhar para frente e descobrir o futuro. Os sonhos de ser jogador de futebol, cantor, de passar em uma faculdade. O primeiro gol na rua, mais importante que o de Pelé. A primeira briga, o primeiro flerte. O primeiro beijo, mais importante que o gol que já era aquilo tudo.

O primeiro namoro, a primeira lágrima do término doloroso, quando tudo que se quer é morrer de forma indolor, sem saber que daqui a um ano haverá um novo amor, geralmente platônico e impossível. Lidar com a perda, a primeira morte, tão impactante quanto a música de plantão que toca na TV.

Descobrir o corpo, o proibido, lidar com os medos, com as lendas. O homem do saco, a loira do banheiro, o papa figo, o cara da kombi. Se sentir imortal, imbatível, imparável, para o desespero dos pais, que nem sempre estão juntos, aliás. Lidar com a família partida ou unida, uma roleta que não depende daquele olhar.

Olhar para si e ver a vida crescer. Ver sementes que brotam e nascem. Observar seu presente virar passado, seu futuro virar o hoje. Deixar de ser o calouro e virar o experiente. Ver o ponteiro que girava lento passar a correr como velocista.

Olhar para dentro e desvendar que o olhar dos seus pais agora está ali, reverberado. Os medos, os apuros, as alegrias, os sorrisos e as lágrimas. E até as lágrimas com sorrisos. Saber dividir, desde a última gota de paciência até o primeio raio de sol que entra na janela do sono gostosamente mal dormido.

E seguir em frente, a rumo incerto e não sabido, mas sabendo que deixou um legado. Que anda, que fala, que pensa, sente e vive. Que é herdeiro e responsável direto por tudo e de tudo que se faz. E que consegue manter os velhos sempre com o frio na barriga do medo e com os olhos brilhando de orgulho. Novos e velhos, sempre crianças, no carrossel de emoções.

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