Estrada das Estrelas

“I love it and I need it I bleed it
Yeah it’s a wild hurricane
Alright, hold tight, I’m a highway star”
[Deep Purple, “Highway Star”]

Botafogo. Na trilogia das rivalidades regionais, o Botafogo é o clube de onde se espera o imprevisível, o imponderável, o ilegal, o imoral e o que engorda. As alternativas são infinitas, tão infinitas que o símbolo do tudo se resume ao equilíbrio. E isso, entre Flamengo e Botafogo, significa o empate.

Há poucos dias, Flamengo e Botafogo já tinham subvertido a lógica. Em um jogo no qual o rubro-negro dominou e abriu o marcador, tendo inúmeras oportunidades de matar o rival. Não o fez, e o clube da estrela solitária ressurgiu e atropelou o Flamengo, com um show de Seedorf e Gegê.
[pausa: em um mundo de jogadores com sobrenome e pasteurizados, alguém de alcunha Gegê é um bálsamo. Fim da pausa]

Mas esta quarta-feira seria diferente. O Botafogo, a maior representação da classe média no futebol brasileiro [influente, tradicional, trabalhadora, reclamona, chorosa e sem dinheiro] era favorito. Como se fosse finalmente esmagar o Flamengo, relembrando os anos 50 e 60.

Entretanto, o Flamengo não é mais aquele. É um gigante. Um colosso que ultimamente vem na contramão atrapalhando o tráfego, mas ainda assim enorme. E não se subestima um gigante. Depois que Pep Jaymiola, o filósofo cabeçudo da simplicidade, assumiu o time, a máquina engrenou. O subúrbio tem uma sigla que define isso: HD. Humildade e disciplina. O Flamengo de hoje é embebido em HD.

O jogo começa com aquele equilíbrio tradicional, que não pende para lado algum. Até que Paulinho sofre uma falta. Na cobrança, Marcelo Mattos tenta afastar, a bola bate em Rafael Marques e sobra para Chicharito Hernane. Tem coisas que só acontecem ao Botafogo.

[pausa: Chicharito Hernane é um raro espécime no futebol de hoje. Centroavante de ofício, trombador. A centroavância não exige nível superior futebolístico, é uma profissão de caráter técnico e extremamente definidora. Hernane é um ator importantíssimo no Flamengo de hoje. Um Charles Bronson extremamente eficiente, que só não funciona quando pensa ser Daniel Day-Lewis. Cada um atua conforme sua capacidade. Um toque, é o que Chicha precisa. Fim da pausa.]

A bola encontra Hernane. É uma paixão violenta, um sexo selvagem, camisa nove. Nove e meia semanas de amor. O chute sai bonito e a bola beija a rede. 1-0. Que já poderiam ser dois, se Carlos Eduardo não sofresse de narcolepsia e tivesse perdido gol incrível instantes antes.

Paulinho estava em noite infernal. Enquanto Carlos Eduardo parecia estar possuído pelo espírito de Morpheu com tylenol, Pequeno Paulo era o Uri Geller redivivo. Rabisca, Paulinho. E lá ia ele, humilhando Gilberto, que hoje certamente acordou com lordose e escoliose de tanto ter sua coluna revirada. Rabisca, Paulinho. Dando um corte em Rafael Marques que deixou o jogador do Botafogo em Lins de Vasconcelos. Rabisca, Paulinho.

Ele não chuta bem, mas chuta com vontade. Paulinho merecia ser craque só pela vontade. Como diria a botafoguense Elza Soares, Paulinho veio do planeta fome. Fome de vencer. O chute dá rebote e a bola encontra ele, Hernane. Que bate do jeito que ela vem. Como assassino de ofício, um toque, o gol. 2-0.

O Botafogo já foi para o intervalo derrotado. A estrela solitária entrou em depressão, como se fosse um poeta bêbado ou músico dos Loser Manos. Na volta, o time ainda ensaiou uma pressão. 8 minutos…

… tempo suficiente para o contestado André Santos acertar – numa folha qualquer, onde se desenha um sol amarelo – um cruzamento milimétrico, que encontrou a cabeça de quem? Ele. Chicharito Hernane. Barba, cabelo, bigode. Jefferson, o melhor goleiro do Brasil, só pôde fazer cara de choro. E buscar a bola no fundo da rede. 3-0.

Estava fácil. Extremamente fácil. Pra você, eu e todo mundo cantar junto. Tão fácil que até Carlos Eduardo finalmente acordou do seu sono de beleza e enfiou uma bola de sinuca, um passe de triângulo, com açúcar e afeto para Chicharito Hernane. Iluminado, adentrou a área e foi derrubado por Dória. Pênalti.

Dória, que estava tomando um baile no jogo, já tinha perguntado “Do You Wanna Dance?” e te abraçado “Do You Wanna Dance?”, estava expulso. Um sonho a menos não faz mal. Botafogo na lona. Quem iria bater o pênalti? Ele, o aniversariante. Léo Moura.

O cara que ganhou todos os títulos possíveis em âmbitos nacionais com o Flamengo, tão cornetado quanto uma banda de jazz, mas jogador histórico. Bateu com simplicidade e perfeição. Gol. Ele merece. Parabéns pra você, nesta data querida. 4-0.

Alguns torcedores fanáticos – eu incluso – queriam mais. Queríamos seis, o número definitivo da cabala humilhante entre Flamengo e Botafogo. Mas estava bom. Na estrada da Copa do Brasil, as estrelas sem brilho do Flamengo seguem, amparadas pelo cometa da torcida. A estrela solitária do Botafogo é cadente. Que venham as semifinais.

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A crônica entre Flamengo x Cruzeiro, pelas oitavas de final, está aqui

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4 opiniões sobre “Estrada das Estrelas

  1. Pingback: Venha Junto | Cotidiano e Outras Drogas

  2. Pingback: Viajantes na Tempestade | Cotidiano e Outras Drogas

  3. Que crônica sensacional!! Chorei de emoção ao ler, tal qual ontem na hora do terceiro gol, quando deu pra perceber definitivamente que a estrela do dia que brilharia era a nossa e que a “estrela solitária” já estava no chão. 😀

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