O Embate

Aquele dia tinha sido um inferno. Um lamúrio, um lamento, uma tristeza, quase um samba daqueles que celebra o choro, a dor e a depressão. Certas tardes se trabalha em ambientes intranquilos. Pois bem, aquela tinha sido uma assim. Ele estava um caco.

Tudo que ele queria era relaxar, chegar em casa, abrir uma cerveja e se refastelar no sofá. Ao abrir a geladeira, percebeu que não havia mais cervejas. O fim do mês é sempre inclemente. Sem cerveja, restou passar um café. Colocou a água pra ferver. Acendeu um cigarro. Finalmente sentou no sofá e acendeu a luz.

Quando a sala ficou clara, de relance a viu correndo. Negra, imponente, forte, parecendo intransponível. Poderia ser uma pantera, era uma barata. Se escondeu naquele buraco negro que existe atrás da cômoda, onde moram criaturas fantásticas como o duende que esconde guarda-chuva ou o goblin que rouba chaveiros.

A partir daquele momento, ele ficou cabreiro. Cabreiro, não. Preocupado. Ou melhor: em pânico. Estava com a sensação angustiante de ser observado por aquele inseto que, de tão cascudo, parecia ser mitológico. Se entrincheirou em sua própria sala.

Lembrou dos tempos em que vivia em família, quando matar baratas era responsabilidade de quem via primeiro. Ele nunca – ou nunca fazia questão – de vê-la. Era o medo travestido de ecologia. Mas agora, morando só, o embate era iminente.

Ficou hesitante entre puxar ou não a cômoda. Não sabia ele quantos
perigos aquele movimento poderia revelar e isso lhe dava apreensão. Era inevitável, o momento havia chegado. Mexeu a cômoda.

Ela estava lá, altiva. As antenas malemolentes, como se desafiando a ele estivesse. Ele, com chinelo na mão, escutando a trilha sonora de Ennio Morricone ecoar em sua mente, no seu faroeste particular. Na primeira chinelada, surpresa, ela driblou. A barata era Garrincha, ele era João. A segunda chinelada também foi infrutífera, até que ele apelou.

A Convenção de Genebra diz que proibido o uso de armas químicas, mas ele não quis nem saber. Lembrou do inseticida outrora largado na dispensa e caprichou na dose. Aquela barata, que poderia resistir a bombas atômicas, ficou doidona, titubeou e caiu. Ele utilizou tanto que quase morreu solidariamente ao inseto.

Com um misto de medo e triunfo, viu o bicho agonizar na sua frente. Mesmo tendo trapaceado na batalha, manteve a honra de dar uma chinelada de misericórdia e abreviar o sofrimento da barata, que lutou o bom combate. Sem nenhuma condolência, a jogou na lata de lixo.

Sentou-se no sofá sem troféu, sem comemorações, apenas aliviado. E puto, porque lembrou que não tinha cerveja. E mais puto ainda, porque tinha esquecido a água fervendo pro café e a chaleira secou. Decidiu tomar uma ducha e dormir, pra que pelo menos na manhã seguinte não acordasse de sonhos intranquilos.

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Baseado em um pequeno post de Diego Salmen no Facebook, com um excerto sensacional de Rodrigo Macedo.

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