O Que Move o Mundo

A dor move o mundo. Não por acaso, nascemos chorando. E não por acaso, quem nos gera corta um dobrado, seja no parto dito normal, seja na cesariana. A celebração da vida nasce do sacrifício. É apenas o prenúncio do que vem pela frente.

Quando crianças, a dor faz morder e andar. A dor gera medo, impõe limites. A partir da dor a criança supera os pequenos desafios e conquista as coisas. E infante é um ser cruel. Não há coisa mais ácida do que a sinceridade de uma criança para com outra. E ali, começam a se forjar os anticorpos para aguentar o mundo. A dor que protege.

A tristeza da rejeição do par que se gosta é o que ensina a tratar com respeito o outro. É o castigo imposto pelos pais que mostra que a indolência e o mimo não levam a lugar nenhum. A perda do gol no futebol ou o ponto no vôlei que ensinam a perder, por mais detestável que seja. E é o ponto tomado no queixo que faz com que se busquem novas alternativas na bagunça. A dor é criativa.

Quando o coração é tão grande como um quarto de putas, acumulando amores e sabores, é a dor da escolha que indica qual caminho seguir. Quando há humilhação e se engole em seco a pancada, com ódio nas entranhas, é a dor que mantém em pé, para que ser subjugado não seja ser escravo da própria tristeza. A dor é combustível.

A dor que vira endorfina. Como diria o poeta, é de dor que se chega ao céu, o gosto do amor. Que dói ao conquistar, ao ceder, ao manter e ao separar. Mas que gera alegrias em todo o processo, sempre, não importa quanto tempo dure cada um deles. A dor que encanta.

E que depois se desdobra na dor de saudade ao ver um filho crescer e sair de casa, que lateja de nostalgia ao ver a partida de alguém querido que vai pra não se sabe onde, mas que fica n´alma, bem perto de nós. A dor gerada do medo do desconhecido. A dor da ignorância.

O que pulsa e machuca na doença, que sangra esperando a cura que vem, ela sempre vem, de uma forma ou de outra. E quando ocorre o restabelecimento, sempre fica o alerta do que houve, para lembrar das cores da vida que às vezes se vive em preto-e-branco, ou pior, em cinza. A dor que é aquarela.

Até que os dias passam e a vida vai deixando de ser benção e começa a virar maldição. As dores vão diminuindo, posto que o ciclo natural vai se encerrando. Pois quando não é arrancado de si, tudo que se quer uma hora é descansar. A dor que move o mundo.

Até ali, dor era a vida, agora o que se quer é paz. Descansar não é uma figura de linguagem, é um bem necessário. E assim é o fim, que injustifica os meios. Pela alegria de viver, fomos todos masoquistas.

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8 opiniões sobre “O Que Move o Mundo

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