A Viagem

– Filha, vamos. Você está atrasada.
– Bora. [vai calçando o tênis, penteando o cabelo, escovando os dentes e rezando antes de sair de casa, tudo ao mesmo tempo]
[no carro]
– E aí, como está, tudo beleza?
– Tudo. O colégio mandou uma carta, vai ter uma viagem de fim de ano.
– Sério? Que bacana! Essas viagens de fim de ano são muito legais, meio que marcam a passagem do ensino fundamental pro médio, no meu tempo do ginásio pro científico.
“ginásio pro científico”?! É a velhice, hein?
– Me respeite, figurinha. Pra onde é a viagem?
– Fortaleza.
– Fortaleza é bem bacana, hein? Tá cheia de moral. Quanto custa?
[diz o preço]
– Hum. Vamos proporcionar.
– Sério?!
– Sim, sério.
– Que legal. Você e mamãe são demais mesmo! Que felicidade, vou viajar com a galera.
– Sim, vai.
[dá um beijo e um abraço]

* * *

– Filha?
– Oi.
– Juízo nessa viagem.
– Tá. Será massa.
“massa”. Hum.
– Que foi?
– Nada. Ah, esqueci de falar algo importante.
– O que?
– E o boletim? Vou receber o boletim antes dessa viagem?
– Ahn…
– Ué, você achou que eu não ia querer ver o boletim?
– Eu acho que o boletim só sai depois da viagem.
– Você “acha”. Hum. Entendo.
– Sério, só deve sair depois da viagem.
– Filha, aqui é tática Papai Joel. Primeiro a gente se livra do rebaixamento, depois ganha prêmio.
– Mas eu tô bem no colégio, juro!
– Olha, o último boletim que eu vi tinha um foco de revolução comunista em matemática, cheio de vermelhos reunidos.
– Eu tô melhorando.
– Sei.
– Alivia aí, pô
– Você tem quinze anos criada na classe média pernambucana e quer dar migué em um suburbano, de onde você tirou isso?!
– Aprendi com você?
– Comigo?!
– É. [gargalha]
– Essas balbúrdias você aprende rápido, mas matemática que é bom, necas, né?
– Sério, vou passar de ano. Deixa eu viajar, vai…
– Vou falar com sua mãe.
– Deixa que eu falo com ela.
– Hum. Veremos.

* * *

– Olha, vou liberar a viagem dela. É a primeira viagem dela sozinha, faz bem. É um passo importante.
– Concordo contigo, mas…
– Eu sei, você vai falar do boletim. É só uma exceção. Depois a gente endurece, mesmo que ela esteja um pouco embolada em matemática.
– Mas ela estar embolada em matemática não é exceção, é regra, pô. Vai aliviar mesmo?
– É verdade, mas vamos liberar. Só dessa vez. Vou aliviar.
– Hum. “Só dessa vez”. Entendo. Ah lá ela olhando da porta, abrindo o sorriso marto depois desse “só dessa vez”.

* * *

– Filha, vamos comprar sua viagem, mas estaremos atentos ao seu boletim.
– Oba! Tudo vai dar certo. Eu quero passar de ano, também estou preocupada com isso.
– Vamos ver. Espero que você não me desaponte.
– Pode deixar.
– Outra coisa, filha. Traz um pacote de castanhas de caju pra mim?
– Trago.
– Paga com o dinheiro da sua mesada, ok?
– Mas aí você tá gastando minhas economias.
– É pra você ver como a matemática é importante na vida. Só dessa vez.
“Só dessa vez”. Entendo.

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4 opiniões sobre “A Viagem

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