Viajantes na Tempestade

“Into this house we’re born
Into this world we’re thrown
Like a dog without a bone
An actor out alone
Riders on the storm”

The Doors – Riders on the Storm

19 de setembro de 2013. Ao fim daquele dia, onde o Metallica fecharia a noite do Rock in Rio, o Flamengo tomava uma traulitada do Atlético-PR, em pleno Maracanã. Um pesadelo. Enter Sandman. Depois de sair ganhando por 2-0, tomou uma virada inapelável que contou com requintes de crueldade – leia-se gols de Fran Mérida e Roger.

Naquele dia, Brother Menezes se imbuiu do espírito de Raul Gil, pegou seu banquinho e saiu de mansinho. Disse que os jogadores não entendiam seu mirabolante esquema tático que precisava ser selado, registrado, carimbado, avaliado e rotulado se quisesse voar. Era um time em frangalhos, na tempestade de críticas da rua da amargura e ainda por cima chamado de burro. O Flamengo estava na lama, nas palavras caetânicas e metafóricas de seu ex-técnico.

Eis que Jayme de Almeida entrou numa cabine telefônica, aceitou o desafio e se transformou em Pep Jaymiola. As palavras ruins de Mano Menezes não deixaram de ecoar, mas uma frase que ele disse também pairou no ar: O Flamengo é copeiro. O Flamengo virou copeiro. Copero y peleador, diz o brocardo platino.

Liderado pela habilidade de Pep Jaymiola, o Flamengo começou a respirar no Brasileiro, passou o carro no Botafogo na Copa do Brasil e chegou as semifinais no sapatinho. O próximo adversário? O Goiás, liderado por Walter, o Stay Puft do cerrado. Só que o monstro de marshmallow verde deitou e rolou na maca, acometido por uma contusão na coxa. Um desfalque de peso – sem trocadilhos.

No primeiro jogo, no Serra Dourada, o Flamengo jogou com a astúcia de uma onça e a velocidade de uma seriema. Antes que tocasse o tema do Globo Rural, fez dois gols nos verdes, que amanheceram, pegaram a viola, botaram na sacola e foram viajar – pro Rio.

Ontem, no Maracanã, o Flamengo estava diante de sua torcida. Uma tempestade caiu no Rio de Janeiro, mas ele estava pintado de vermelho e preto. E ninguém arredou pé. O décimo-segundo jogador. O time outrora abandonado na rua da amargura se sentiu acarinhado. Os jogadores, antes chamados de burros, tinham respaldo. O time é limitado, mas não está morto quem peleia. Desacreditado, o Flamengo é mais forte.

Eduardo Sasha, entretanto, aos quatro minutos, aproveitando uma cobrança de falta, subiu na área, quis ver, tindolelê, nheco-nheco, xique-xique, balancê. Balançou a rede de Paulo Victor, que só deu aquele pulo cenográfico. 0-1.

Mas o Flamengo estava calmo. Nada dói mais do que a humilhação. Ter passado por aquilo dá uma grande força ao time. O time começou a tocar a bola, retomou o controle das ações e passou a espremer o Goiás como se fosse um limão, verde que é. De Paulinho para Elias, bate, rebate, de Elias para Chicharito Hernane, o rei do camarote do Maracanã. ¡Un, dos trés, hay gol de Chicharito, Maria! Agregou status. 1-1.

Ainda não era suficiente. O Flamengo continuava a encurralar o Goiás, que estava sem respirar. Acossado, o time esmeraldino perdeu mais uma bola que foi rolada para Elias. Elias, o profeta black, motor king combo do Flamengo…

… e Elias lembrou de Davi, seu filho, que estava com pneumonia e tinha finalmente saído do hospital. Elias jogou as últimas partidas com a cabeça no gramado e o coração em Davi. Partidas abaixo da média, até falhando no primeiro jogo desta semifinal. A torcida sempre o apoiou, inclusive fazendo corrente de orações para o guri…

… e Elias não esqueceu. Pela massa e por Davi, deu um tirambaço com a força de Golias. Renan, o goleiro verde, sequer viu a bola, tomando o terceiro gol de fora da área em três jogos contra o Flamengo. Já pode pedir música de tristeza, goleiro. Goiás em desvantagem. 2-1.

O segundo tempo foi equilibrado, com o Goiás tendo chances e o Flamengo também. Paulinho, o rabiscador, inclusive quebrou a ponta da chuteira e mandou uma bola lá no Morro da Providência, perdendo um daqueles gols mais feitos do que miojo em república de estudante. Não fez falta, Flamengo na final.

Agora o Flamengo vai encarar o Atlético-PR. Futebol não é feito de nome, futebol é feito de momento. O Atlético é favorito, mas o Flamengo, tão desprezado e solto pela estrada do esporte, está na ativa. Os viajantes largados na tempestade da amargura, 2 meses depois, estão na final.

Tentando chegar à bonança, na humildade e disciplina, como tem de ser, sem deixouchegaísmo, como azarões. Mas não se enganem nem se iludam, somos humildes, mas não baixamos a cabeça. O Matador está na estrada.

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A crônica entre Flamengo x Cruzeiro, pelas oitavas de final, está aqui

A crônica entre Flamengo x Botafogo, pelas quartas de final, está aqui

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Uma opinião sobre “Viajantes na Tempestade

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