Domingos

Ela não gosta mais de domingos. Sempre foi o dia que ela mais adorava viver. Acordava com o sol, fazia muitas coisas e se deprimia quando escutava a musiquinha do Fantástico. Mas este romance dominical acabou.

Está longe de casa. Sente falta até das coisas que não gostava. Da missa. Como gostar de missa? Pois é, mas agora sente falta. E saudades dos doces, dos refrigerantes, dos sotaques. Das coisas mais simples e banais, às quais nunca deu muita atenção.

Queria passar os domingos vendo o time de coração ao lado do pai. De todas as faltas, talvez a mais sentida. Escutar futebol na rádio é uma suave vingança naquele lugar cinza e inóspito. Cada grito de gol é uma revolução pessoal, como se libertasse todos os demônios e aprisionasse a saudade que às vezes lateja de rasgar.

E corre. A vida virou uma eterna correria. Fugindo da tristeza e da melancolia, buscando decorar a solidão com a coroa dos sonhos e do futuro. Que há de chegar. Até por isso e também por isso, ela não gosta mais de domingos. Os domingos têm horário pecilotérmico. Passam rápidos demais quando se está feliz, passam lentos demais quando se está triste.

Ela, que acordava com o sol, hoje tem dificuldade em dormir. Não escuta mais a musiquinha do Fantástico, mas ainda assim tem a intuição do horário em que ela começa a tocar. E quando pressente este tempo, abre um sorriso. Porque a chegada da segunda é a trombeta de que o futuro está mais perto. E ela quer voltar a gostar dos domingos.

Anúncios

Uma opinião sobre “Domingos

Agora pare: Escreva um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s