Gabo

Férias. Naquele dia, entre churros e café, em algum lugar do Bairro Gótico, decidimos não ter mais filhos. A Pequena faria 15 anos, a gente já havia tentado tantas vezes e não vinha. Estávamos começando a viajar e conhecer o mundo, fora da janela. Ali, em lugar tão sonhado, foi tomada a decisão.

Claro, você deve ter ouvido e colocou o pé na porta, furando a fila. Sem sabermos, naquelas férias, você foi gerado, pra subverter a ordem das coisas pela primeira vez. Voltamos de viagem muito felizes por ela, mas não tínhamos a mínima idéia do tamanho do presente que trazíamos.

Sua mãe, no início de abril, teve um pequeno sangramento que se tornaria a emulação de Moisés abrindo o Mar Vermelho. Ali, atendida na urgência, por um desses médicos jovens e apressados que sabem muito de não saber nada, escutou que “provavelmente era um aborto”. Ficamos arrasados, mas não seria a primeira vez. Fomos em frente.

E em frente sua mãe continuou sentindo dores. Dores que uma médica jovem que tinha “uns oito partos pra fazer no dia” afirmou categoricamente ser um mioma. Pelo menos essa pediu um exame detalhado. Neste exame, entre gargalhadas, o médico que nos atendeu disse que mioma era um nome muito feio pra uma criança. Aí, finalmente, no dia de São Jorge – carregado de simbolismo – soubemos que você viria. E nossa vida mudou.

Não vou contar aqui sobre os preparativos para sua chegada porque isso daria um livro do tamanho daquele “A Vida do Bebê”. Falaremos muito sobre cada detalhe durante sua vida, seja pra você conhecer, seja pra arengarmos contigo. Não se preocupe.

Você vai conhecer pessoas fantásticas na sua vida, Gabo. Sua mãe é fabulosa. Ruiva, zen e braba ao mesmo tempo, com um tempo só dela, que aos olhos dos outros – inclusive eu – parece caos, mas sempre dá certo. Dona de talentos com artes que pouca gente tem, se você for bafejado por este dom estará em ótimo caminho.

Além disso, ela é generosa, dona de uma risada cativante, amorosa e leal, pronta pra ensinar um monte de coisas e valores. Aliás, é o tipo de coisa que ela vai te ensinar enquanto você estiver fazendo trelas ou no cantinho do castigo [essa parte eu não vou te contar, você descobrirá por si só].

Você tem uma irmã, a Pequena, a Bubby, que não é mais tão pequena assim, mas é um primor de generosidade. Nos seus 15 anos, ela, multicolorida, tem uma índole que poucos seres humanos têm. Vai cuidar de você como irmã mais velha e te aperrear [e ser aperreada] bastante.

Além disso, ela tem um senso de humor peculiar e sensacional, e um dom artístico que é coisa raríssima por aí. Desenha como gente grande. Vai te ensinar muito a rabiscar quando você ficar maior. E provavelmente vai te dar uns cascudos se você desenhar as paredes do quarto dela. E serão grandes amigos, como os irmãos devem ser.

Quanto a mim, meu filho, vou fazer o máximo para ser bom pai, te aconselhar e ensinar as coisas nessa estrada que se avizinha. Este não é um texto memorial, porque isso é coisa de filme da Sessão da Tarde [que não sei se existirá no seu tempo] e eu pretendo e vou viver muitos anos. Mas alguns toques são necessários.

Aqui fora, as pessoas buscam muitos rótulos. Quem usa rótulo é remédio, e essa é uma lição importante. Você nasce de uma mistura imensa. Seu sangue é austríaco, caboverdiano, nordestino, gaúcho, carioca e brasileiro, acima de tudo. Você é fruto da tolerância e da relação entre os povos, guri. E isso estará sempre marcado em você.

E em casa, isso se aprofunda mais. Eu sou ligado a religiões africanas, sua mãe é “atéia bundona” [porque ateu que diz “se Deus quiser”, tem medo de espírito e manda um famoso “reza aí” quando está angustiado é muito do cara de pau, né?] e sua irmã é católica. E você vai ser o que você quiser, na hora em que se sentir pronto pra isso.

[Pausa: Aliás, sua mãe um dia vai te contar o causo do seu bisavô – grandíssimo homem – ateu convicto, que com seu sarcasmo peculiar, deixou o bigode crescer no fim da vida. “Se Deus existir, pelo menos chego disfarçado”. Fim da pausa]

Você terá a liberdade de fazer suas escolhas, meu filho. Caberá a nós te educar – exceto seus avós, figuras geniais e de excelente índole, com salvo conduto de amor pra te deseducar – para que você faça as melhores escolhas, mesmo que no primeiro momento não compreendamos e você tenha de nos explicar.

A nós, pouco vai importar se você será hétero ou homo, branco ou negro, de esquerda ou de direita, do mar ou da montanha. Se for o que te faz feliz, desde que não intervenha na liberdade de ninguém, nem seja por meios escusos, será sempre respeitada sua vontade.

[Pausa 2: Inclusive, meu filho, você é livre para escolher seu time de futebol também. Entretanto, sem hipocrisias, é preciso que você saiba que o Flamengo é o time mais legal do mundo, que você ganhou 3 uniformes do Flamengo antes de nascer e que você nasceu aos 43 minutos das 9 horas. Em se tratando de Flamengo, 43 é um número cabalístico, tão cabalístico quanto o 10, quase um indicativo Dalai Lama de rubronegrismo [sic]. Portanto, meu filho, pense com carinho sobre sua opção clubística. Levarei você em centenas de jogos – do Flamengo – até você tomar uma decisão isenta e equilibrada. Fim da pausa]

Meu filho, você só tem um ponto sob o qual não tem a mínima opção. Você tem de ser um cara decente. Sujeito homem, ponta firme, daquele que olha nos olhos, daquele que aperta a mão com firmeza. Que respeita e é respeitado. E que lida com elegância com as adversidades e os adversários, em quaisquer circunstâncias.

Vai andar pelos caminhos que a gente passou, pelos subúrbios, pelas vielas, pelos lugares que hoje você não precisa passar, mas vai, pra saber de onde veio e saber respeitar cada conquista e cada pedaço. Nada vem de mão beijada, tudo é fruto de esforço e sabedoria.

Não vai baixar a cabeça pra ninguém, não vai ser submisso nunca. E ganhando ou perdendo, vai fazer o seu melhor, sempre. Saber lidar com os imprevistos pra surpreender e se surpreender. Buscar acertar sempre, mas reconhecer o erro, porque todos somos humanos. E a partir daí, trilhar o melhor caminho.

Isso, meu filho, também é coisa de família. Passada de geração pra geração. E espero que quando seu herdeiro chegar, da forma que vier, você faça o mesmo. Pois você veio com muita saúde, pra ser muito amado. Pra ser feliz. Temos um ditado em família que diz: “Juntos somos imbatíveis.” Agora a gangue está completa. Seja bem-vindo, amamos muito você.

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13 opiniões sobre “Gabo

  1. Pingback: Gabo – Ano Um | Cotidiano e Outras Drogas

  2. Pingback: 301 | Cotidiano e Outras Drogas

  3. Relato sensacional, mestre! A história do mioma me lembrou um dos primeiros episódios do House, quando uma mulher não sabia que tava grávida, aí o House diz que ela tinha um parasita na barriga, só que ia pegar gosto por ele, dar nome e tudo mais… e que o Gabriel dê toda a felicidade que você, a Érika e a Íris merecem!

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