Vingança Pornográfica

Ela não se alimentava direito há dois dias. Desde que ele, seu ex-namorado, tinha feito o disparate de soltar fotos do relacionamento sexual dos dois na internet. Estava violada, invadida, consumida, implodida. A face do desespero e da humilhação.

Não entendia como um relacionamento de tanto tempo tinha descambado naquela atitude desprovida de caráter. Doía demais. Há histórias que acabam. Aquele desequilíbrio, que já tinha se mostrado no ciúme e nas agressões verbais, tinha ido longe demais.

Estava pensando em se matar. Não queria mais viver nesta situação. Era muita humilhação ler dezenas de comentários a chamando de puta, vadia, vagabunda. Quem nunca tinha feito sexo na vida? E aquele momento íntimo, registrado ou não, era deles. Uma fita de confiança havia sido estraçalhada, e ela era a vítima cujas entranhas estavam expostas aos urubus.

Num rasgo de força, superou a vontade do abraço mórbido da morte. Não poderia ficar daquele jeito. Enquanto estava definhando, ele estava por aí rindo, dizendo que não tinha sido ele. Ela tinha de fazer alguma coisa. E iria fazer alguma coisa.

Iria se defender do jeito que desse. Estava cansada de apanhar. Resolveu reagir. Criou um perfil falso nas redes sociais. No meio daquela lama de comentários e chorume, analisando ginecologicamente seu momento extremamente privado, se encheu de coragem e rebateu. Era hora de emergir da dor. Escreveu, com a bilis: “Ela deve ter feito muito esforço para se divertir com este pau pequeno à disposição.”

Nos minutos seguintes, o foco do escárnio tinha mudado. Todo mundo estava falando do pau pequeno dele. A moça na foto, as posições ginecológicas, tudo estava evaporando rápido como álcool. Criou mais um perfil falso, e soltou mais uma pérola: “Por isso fica tentando chantagear mulher, com esse pintinho não tem muito o que fazer.”

A partir daí, as próprias redes sociais disseminaram o fato. Ele não tinha mais nome, era “Senhor Pintinho”. No escritório onde ele trabalhava, como herdeiro do pai, ao chegar e estacionar seu carro do ano, após um fim de semana em que sentia triunfante por ter humilhado a ex-namorada, observou as pessoas cochichando e olhando para si, de forma muito diferente. Estranhou, pois o temor sempre havia proibido as pessoas de dar opinião. Naquele dia, não.

Não sabia o que tinha ocorrido, mas aí um office boy o chamou de “Senhor Pintinho” e alertou que ele estava famoso na rede social. Ao abrir o computador, viu o tamanho do estrago. Bradou que usaria todos os meios disponíveis para processar quem fez aquilo, até que uma estagiária do escritório lembrou que tudo começou quando as fotos foram disponibilizadas e, já que ele negava a distribuição, tinha sido no mínimo negligente. Agora, tinha de arcar com as conseqüências. Ele se calou.

Durante a semana, a onda de comentários só crescia. Ele tinha apagado as fotos da postagem original daquela rede social, mas as mesmas já tinham corrido toda internet. Só
que em vez do título original de “Puta fazendo gostoso”, agora vinham acompanhadas da legenda “Moça bonita sofre com senhor pintinho”. Ele não sabia o que fazer, chorava feito bezerro desmamado.

Em uma audiência de trabalho, cuja advogada oponente era conhecida, amiga dela, no calor do momento, resolveu falar de justiça e ética. A advogada bateu a mão na mesa, exacerbou a voz, o chamou de Senhor Pintinho e foi aquela confusão. O juiz quase deu voz de prisão aos dois, mas a advogada fez questão de contar a história. A causídica ganhou a simpatia do juiz, posteriormente a sentença e certamente no fórum ele já era conhecido como Doutor Pintinho.

Ela se recuperava na mesma proporção em que ele afundava. Dois meses depois, muito pouca gente se lembrava do fato ocorrido. Quando alguém vinha falar com ela, só queria saber como ela tinha conseguido conviver com aquele cara babaca.

Por outro lado, ele ficou recluso, não ia mais ao fórum e foi achincalhado tantas e tantas vezes que se deprimiu. A lenda urbana disse que ele se matou, no que seria a primeira pornografia vingativa suicida da história, mas isso não foi confirmado. O certo é que ele desapareceu e não dá mais expediente no escritório do pai. Quando esta lenda surgiu na internet, um destes comentaristas de notícias cravou:

“Também, com este pinto pequeno, melhor se matar mesmo.”

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6 opiniões sobre “Vingança Pornográfica

  1. Pingback: 301 | Cotidiano e Outras Drogas

  2. Achei sensacional esse texto. Se valeu de um tema bastante em evidência para fazer um baita conto, colocando mais ainda o dedo na ferida (e que ninguem leia essa frase com conotação sexual, por favor). Parabéns!

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  3. Baita texto. O bacana é que nesses casos o pinto pequeno não é só literal, mas também é simbólico. Porque é uma puta atitude de cara com pinto pequeno espalhar vídeo íntimo de quem quer que seja na Internet

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