Venha Junto

“He say one and one and one is three,
Got to be good looking
‘Cause he’s so hard to see
Come together right now
Over me”
[Beatles – Come Together]

A última das batalhas. O Flamengo não era favorito, mas o sopro dos bons ventos parecia estar a favor. Afinal, como explicar que o voluntarioso Amaral, cão de guarda, exímio destruidor, não tão exímio construidor, tinha acertado aquele petardo em Curitiba, empatando um jogo na terra onde tradicionalmente o rubro-negro é surrado? Era ótimo presságio.

É sabido que o Flamengo tem uma religião chamada deixouchegaísmo, que insurge em decisões. Ela tem um antídoto, o oba-oba. Quando time entra com salto alto, não chega a lugar nenhum. Mas o Flamengo operário de Pep Jaymiola foi curtido na surra e no descrédito, culminando com uma humilhação para este mesmo Atlético, no dia 19.09.2013. Já estava vacinado contra seu maior demônio. E já conhecia o demônio
alheio.

O Atlético estava em melhor fase, com um técnico que já tinha ganho o torneio, um maestro em sua melhor fase e um, vá lá, favoritismo. Entretanto, quando entrou em campo, o time esqueceu disso tudo e estava mais desorientado do que virgem na orgia. 60.000 flamenguistas ensandecidos, cantando o jogo todo, transformaram o Furacão numa brisa de verão inocente, num time juvenil, numa música de Luan e Vanessa.

A verdade é que o jogo, em grande parte de seu andamento, foi feio. Houve um momento que estava mais horroroso que bater na mãe. Felipe ainda tentou dar alguma emoção ao jogo, catando alguns lepidópteros, mas logo se recompôs. Contou com a segurança dos soberbos Wallace e Samir, de um recuperado Léo Moura – bote fé no velhinho, que o velhinho é demais – e de um indecifrável André Santos – quanto mais você espera dele, nada acontece. E no meio de um xingamento, ele te surpreende.

No meio-campo, Amaral, com sua regularidade absurda. Um metrônomo, um papparazzo da volância, grudado sempre na maior estrela adversária. O interminável Paulo Baier, ao encarar Amaral, sentiu como se seu facão não estivesse mais fincado no pé de jequitibá. Virou apenas um idoso comum, em alguns momentos sequer caminhava em campo, disparando bolas alçadas a esmo, sem direção.

Luis Antônio, com altos e baixos, viveu sua partida mais esplendorosa na categoria profissional. bateu uma falta com tanta maestria que acertou a varanda de onde a coruja dorme e por pouco não se consagrou. Sua consagração viria um pouco mais tarde. Elias, tinha começado a partida de forma tímida. Já Carlos Eduardo, finalmente apoiado, acertava muitos passes, embora se movimentando na velocidade Matrix – sem o mesmo efeito prático.

No ataque, Chicharito Hernane voltava para ajudar e Paulinho ciscava mais do que galinha d´angola, sem muitos resultados auspiciosos. Este pas de deux durou 80 minutos, até que…

… o Atlético se abriu. Como um kamikaze desmiolado, partiu pra cima do Flamengo, na base da empolgação, do abafa, do vamo que vamo, do bumba meu boi. Entretanto, nada funcionava, e o Flamengo começou a usar de contra-ataques malignos. A torcida, uma massa uniforme que urrava os cantos do time, empurrava ainda mais o elenco. Não era oba-oba, era certeza. E quando a massa rubro-negra tem certeza, sai de baixo.

Chicharito Hernane perdeu um gol que seria consagrador, uma reedição do voleio de Bebeto em 1989, só que na outra barra. O goleiraço do Atlético salvou miraculosamente, como depois salvou de novo um chute do mesmo Hernane, que nesta jogada conseguiu cruzar a bola para Paulinho…

… que mais uma vez na competição incorporou o espírito de Uri Geller e entortou o marcador atleticano com um drible de quinta série, daqueles que a gente gritava “moral”, “esculacho” e “eu não deixava”. Depois, generoso, serviu Elias e merecia até 10% de taxa de serviço. O volante do Mengão bateu seco, rascante, no contrapé do goleiro do Furacão, que se contorceu mais do que epilético em crise mas não chegou nem perto da bola. 1-0.

Ali, o Atlético estava entregue. Ainda houve uma confusão, uma cena quase lamentável entre André Santos e Ciro – convenhamos, estes dois não são capazes de dar a um furdunço o teor violento que ele merece. Após a expulsão, o Atlético ainda tentou se debater, num último suspiro, até que cedeu mais um contra-ataque a bola caiu nos pés de Luis Antonio.

Ele, que fazia sua melhor partida pelo Flamengo, encontrou Pedro Botelho pela frente. O jogador atleticano fazia uma partida extremamente regular – errou tudo que tentou. Luiz Antônio, sem piedade nem misericórdia, tacou uma caneta quilométrica entre as pernas do pobre defensor, e cruzou por um preço milimétrico, pois sabia que o matador estava na área.

A bola encontrou Chicharito Hernane, que dominou com a classe de um boneco de Olinda e na tentativa de bicicleta, encaixou um velotrol. Irrelevante, posto que fez o que sempre fez. Gol. Gol que simbolizou e resumiu a campanha flamenguista. Gol daquele que foi ridicularizado no começo do ano e terminou a temporada como ídolo. 2-0. Festa na favela.

Fatura liquidada, título para um Flamengo improvável. Aliás, o Flamengo só ganha títulos quando é ungido pelo descrédito – a época de Zico é a exceção que confirma a regra. Levado nos braços pela torcida, o time demoliu na Copa do Brasil quatro dos cinco melhores times brasileiros no ano.

Mano Menezes, que foi contratado a peso de ouro e depois largou o time ao deus dará, dizendo que ia comprar um cigarro, sem voltar, cunhou uma frase profética depois da vitória contra o Cruzeiro: “O Flamengo é copeiro.” Onze em campo, Pep Jaymiola, milhões de torcedores. A equação foi irresistível. Copeiro, peleador.

O Flamengo conhece o torcedor, o torcedor conhece o Flamengo. Juntos, alcançaram a liberdade. Ao contrário de todo e qualquer prognóstico, são campeões. Quando deixa chegar, sem oba-oba, é uma força da natureza. E foram juntos. Intransponíveis. A alma do Maracanã se reacende com este título. E repousa feliz.

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A crônica de Flamengo x Cruzeiro, pelas oitavas de final, está aqui

A crônica de Flamengo x Botafogo, pelas quartas de final, está aqui

A crônica de Flamengo x Goiás, pelas semifinais, está aqui

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Uma opinião sobre “Venha Junto

  1. Menino Arthur, cê tem um talento incrível com as palavras. É algo como a ALEGRIA NAS PERNAS, só que com palavras (e diferente do Negueba). Quando é pra falar de Flamengo, o negócio fica ainda mais sério. Repousamos todos felizes. Merecíamos muito o título depois de tanta porrada.

    ps: inclusive o menino Gabo já mostrou a que veio.

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