Molhar os Pés no Mar

Ela só queria molhar os pés no mar. Já tinha virado uma tradição. Toda vez que ela estava próximo à praia, tinha de banhar os pés na água salgada. Aquilo renovava energias, a deixava mais calma, menos carregada, como se estivesse confessando seus pecados para Iemanjá. Quando soube que ia para perto da praia, abriu um longo sorriso.

O dia começou tenso, com engarrafamento. O trajeto que demorava meia hora durou hora e meia. Aquela reunião que tanto prometia e gerou expectativas virou uma enorme frustração. As palavras e o discurso daquela sala soavam como bigorna. Nada deu certo. Pra completar, saiu pra almoçar e o prato veio frio, o tempero tinha passado do ponto. Não estava nada fácil.

A tarde não parecia ser diferente. O ponteiro das horas estava estático, os minutos se arrastavam como uma lesma e o tempo, que tinha amanhecido tão bom, se fechava. Cinza, plúmbeo. Os telefonemas tão importantes não completavam, ela já não conseguia mais se concentrar. Até a dor de cabeça, visitante certa das horas incertas, tinha dado as caras. Fora da área de cobertura.

Nada do que tinha planejado estava dando certo. Na última reunião, tudo se prolongou além do previsto. Quando saiu, restava tempo apenas para voltar pro aeroporto. Pegou o táxi, deu a direção. O taxista, para cortar o congestionamento, resolveu ir pela orla. E ela tomou uma decisão.

De nada adiantou o motorista alertar que ela perderia o vôo. Pediu para ele esperar, desceu na areia, tirou os sapatos. Começou a chover. E ela não se importou. Sabia que o banho de chuva era bálsamo contra as mazelas da alma. Chegou na beira da praia, fez uma oração. Molhou os pés no mar. Confessou todas as angústias que a martelavam, despejou toda o peso daquele dia triste. Se fez mais leve. Voltou ao carro.

O taxista ainda vociferou algo sobre o atraso, ela não se importou. Secou os pés, calçou os sapatos de volta. Ao chegar no aeroporto, atrasada pelo trânsito e pela parada inesperada, já fazia os cálculos da remarcação do vôo. Não importava. Quando foi fazer o check-in, seu vôo estava atrasado, não precisava pagar multas. Seria mais uma frustração, virou motivo de alegria. De meio vazio, o copo se fez cheio. Porque ela só queria molhar os pés no mar, pra lavar sua alma de esperança. E assim foi feito.

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