Regulamento

Seria um grande domingo em Ramos. O time da Rua da Feira de Cima decidiria o título contra a surpreendente Travessa, que jamais havia sido campeã do torneio. O destaque do time era um atacante magrinho cuja alcunha era Kanu. Forte, ajeitado e filho de mãe solteira, Kanu era o vice-artilheiro do torneio e poderia se consagrar naquela decisão.

Entretanto, no domingo ao amanhecer, antes da festa e do jogo começar, Coronel Wilson apareceu. Dizia ele que o filho dele conhecia Kanu de muito tempo e que Kanu não tinha mais idade para jogar o torneio. “Kanu só teria idade se tivesse nascido em 29 de fevereiro“, assim disse o Coronel. Estava formado o buruçu.

O ex-militar dizia que segundo o artigo 4, parágrafo 18, inciso XIII, do regulamento do campeonato, a Travessa tinha de ser eliminada e a Cabo Reis teria de jogar a final. Os técnicos dos times não lembravam nem quem tinha feito o regulamento, pois o jogo em Ramos sempre se baseou nos resultados do asfalto. “Que porra é essa?“, bradou Bigode, treinador da Travessa, sendo seguido pelos seus pares.

Mais estranho nisso tudo é que o Coronel não gostava de futebol. Mas gostava de leis, de poder. Aproveitou uma conversa durante o dominó no bar da esquina para esmiuçar o regulamento e atuar com um procurador geral soberano, voltando aos tempos de farda.

O Coronel não se abalou, explicou o regulamento e exigiu que a Cabo Reis fosse classificada para a final. Todos olharam para o técnico da Cabo Reis, que envergonhado, disse que não tinha nada a ver com isso. Wilson então disse que deveria ser cumprida a lei, nada menos que a lei, custe o que custar. “Sabe quem dizia isso? Ele mesmo, o Garrastazu“, disse Pink Floyd, técnico da Rua da Feira de Cima, homem de paz, já emputecido com a situação.

A confusão só se alastrava e nada parecia mudar aquilo. Kanu se defendia dizendo que tinha a idade pra jogar o torneio, uma vez que fez aniversário durante o campeonato e ninguém avisou que não podia. Wilson falou que aquilo era uma irresponsabilidade e o técnico Bigode, já emputecido, bradou colocando o dedo em riste: “ô Coronel, pelo artigo 5º, ele pode jogar“. “Que artigo 5º, que não estou vendo?“, replicou o coronel. “Artigo dos meus 5 dedos na sua cara“, disse Bigode, já dando um tapão na cara do idoso coronel e transformando o que já era um inferno numa zona digna de “Feirinha da Pavuna”.

Até as velhinhas da igreja pararam pra ver o entrevero. Separa daqui, puxa de lá, “me segura” de acolá, e cada vez mais não se sabia em que resultaria aquilo. A situação estava fora de controle, até que o técnico dos Marajás, Marcelo Monstro, decidiu usar a solução mais drástica. “Vamos chamar o Supremo“. Todo mundo se calou, até o Coronel Wilson perguntar: “Quem ou o que é o Supremo?

Chama o Djavan.

Djavan chegou com aquela sua malemolência habitual. Não importava se era 0x0 ou 1×1, uma solução teria de ser buscada, naquele momento. O Coronel Wilson lembrou de seu último encontro com Djavan e já não parecia mais tão senhor das leis. O técnico da Cabo Reis, que já achava aquilo tudo surreal, nem quis se meter. Pink Floyd, técnico da Rua da Feira de Cima, habitualmente paz e amor, se recolheu. Bigode e o ex-militar apenas escutaram atentamente.

Vocês sabem que eu tenho muitas discordâncias com a lei“, disse Djavan. Senhor Wilson resmungou que não poderia ser diferente, pois fosse o contrário a sina de Djavan seria treinar e jogar no time de Bangu, não o proletário, mas o do presídio. Djavan ainda perguntou se alguém tinha dito algo, mas o Coronel negou. Continuou Djavan. “Acho que todos os aspectos devem ser contemplados e o que é legal, nem sempre é legítimo ou justo“.

O Coronel Wilson ainda tentou argumentar, lembrando que Djavan era uma autoridade do “comércio” informal. Mas aí Djavan lembrou ao ex-militar: “Por exemplo, Coronel. Muita gente morreu neste país porque o exército estava amparado numa lei pra torturar os outros. Isso é legal? Isso é bacana?“. Coronel estava estupefato com Djavan e seu conhecimento de história. Mesmo assim insistiu em chamar golpe de revolução e Djavan não quis discutir, mas lembrou que o legalismo estrito nunca é um bom caminho, embora ele mesmo fosse suspeito de afirmar tal coisa. “Pelo menos é coerente“, afirmou o milico.

E qual é a solução então, Seu Djavan?“, perguntou o árbitro da partida. Djavan decidiu que o resultado em campo devia prevalecer, pelo bem do futebol. Em primeiro lugar, suspendeu o Coronel Wilson de todas as suas funções desportivas, até porque ele nunca teve nenhuma mesmo. “Coronel, vai cuidar do seu cachorro novo, o Garrastazu“. Em segundo lugar, decidiu que o resultado de campo continuaria o mesmo, e que Kanu poderia fazer sua despedida do torneio, já que até ali, ninguém tinha dado por conta e a culpa não era do guri.

O pessoal da Cabo Reis ainda tentou chiar, mas Djavan lembrou que eles eram “terceiros interessados e nada tinham a ver com aquilo” “Se não interessa, mando eu“, disse o cartola meliante, ausente de bem-querer e de encanto. Após o burburinho, acharam melhor não recorrer. A última sentença de Djavan foi que o regulamento deveria ser refeito, porque zona só é boa na Vila Mimosa e aquilo ali era uma bagunça. O árbitro do último jogo então seria ele, auxiliado por Marilu, sua Magnum .40 de estimação, para evitar quaisquer discussões.

E assim, em Ramos, os times voltaram a decidir o torneio em campo, enquanto os técnicos firmaram um acordo de escrever um novo regulamento tão logo este campeonato acabasse. E todos eles concordaram em escrever expressamente que o Coronel Wilson não poderia representar nenhum time ou discutir nada do papel. E Djavan trilou o apito, para que o jogo fosse como deveria ser: jogado.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, alguns personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço”,  “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

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