Hipopótamos

– O que você está olhando?
– Nada, só os carros passando.
[acende um cigarro]
– Tá tudo bem?
– Tá, só um pouco cansado.
– Quer um café?
– Quero. Como foi seu dia?
– Tudo bem, as coisas organizadas, a angústia passou.
– Ufa. Que bom. Angústia é sensação de afogamento. É muito ruim.
– Verdade. Me desculpe pela tristeza. Às vezes acontece. Não é por sua causa, é que simplesmente o fardo parece muito pesado e eu sinto que vou desabar.
– A gente só carrega o que pode suportar. Você não precisa pedir desculpas pela tristeza. Tristeza não é motivo de vergonha, nem é pecado.
– É, mesmo assim não gosto.
– Só há de se tomar cuidado com a amargura. A amargura é o suicídio da alma. Envenena como arsênico, aos poucos, até te deixar no breu absoluto, sem amigos, sem visão, sem esperança. Não há coisa pior que viver sem esperança.
– Essa sensação inglória de não saber como será o dia de amanhã, entende?
– Entendo. Mas ninguém sabe como será o amanhã, nem a cigana. Ser imprevisível é um dos grandes talentos da vida. Às vezes zombeteira; noutras, generosa. Mas sempre armando uma surpresa.
– Você acredita em almas gêmeas?
– Acredito em espíritos, na defesa do Flamengo, em felicidade e na humanidade. Almas gêmeas não me parecem algo tão impossível.
– Tô falando sério.
– Eu também. Acredito que haja um grupo de almas gêmeas. Não é aquela coisa “Luan & Vanessa”, do nome escrito na areia. Há um conjunto de pessoas que, de forma inexplicável, se ligam. E assim vão vivendo, se amando das mais diversas maneiras.
– E isso pode acabar?
– Talvez. Pode se transformar, as pessoas podem se afastar. O fato das almas serem próximas não quer dizer que não tenham livre arbítrio.
– Que papo cabeça, né?
– Estou me sentindo o João Bidu.
[gargalha]
– Às vezes parece que as coisas não vao ter jeito.
– Tudo tem um jeito nessa vida, menos a morte. Se não parece ter solução pro problema, é melhor nem se esquentar com ele e esperar pra encarar quando der pra resolver a parada.
– Hum. Interessante.
– Como os hipopótamos.
– Ahn?
– É. O hipopótamo fica ali, na dele, não enche o saco de ninguém, come, bebe, rola na lama, cuida dos seus e faz suas necessidades. Quando o problema chega, ele não tá nem aí.
– Onde você quer chegar?
– Aí, quando o hipopótamo se sente ameaçado pelo problema, vai lá e estraçalha tudo. Resolve logo a bronca e volta a rolar na lama. Sem dramas, só na praticidade.
– Um modo muito simplório de ver a vida.
– A parte mais complexa da vida é torná-la simples.
– Parece um clichê.
– Se clichê fosse ruim, não faria sucesso.
– É um ponto.
– Relaxa, vamos resolver essas problemas. Não se angustie. Lembre-se sempre: hipopótamos
– Você tem razão.
– Ainda tem café?

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