Gorro Vermelho

Eles moravam longe de casa há algum tempo. Não havia mais aquelas festas de família grandes, como foram acostumados. Agora com três filhos, se desdobravam pra proporcionar um Natal alegre e mantendo a magia com a qual foram acostumados desde os tempos de criança.

Então, tinham um pacto: Além de esconder os presentes pela casa, ele colocava o gorro vermelho e, como patriarca da família, seria o representante do Papai Noel. Sempre, Natal após Natal, era ele que, à meia noite, se encarregava de distribuir os presentes em nome do bom velhinho, enquanto os presentes dele e dela pras crianças eram objeto de gincana e caça ao tesouro.

Assim foi durante vários e vários anos. As crianças já estavam um pouco maiores e as coisas já não iam bem, quando decidiram se separar. Às vezes, a melhor maneira de estar junto é estar longe, para salvar o pouco de amor e o muito de respeito que resta. Com filhos na equação, a matemática sentimental é tão complexa quanto física quântica.

* * *

Aquele seria o primeiro Natal sem ele por lá. A angústia era grande, e naquele ano não deu pra viajar e encontrar a família, o que ajudaria a anestesiar a ferida da alma aberta, sem cicatriz. Entre lágrimas e pensamentos esparsos, ela sabia que aquele momento chegaria, mas ainda não tinha encontrado solução para explicar o que seria feito para as duas meninas e o menino mais novo.

Perto da meia-noite, ela ainda espalhou os presentes pela casa. Ele não esqueceu de mandar os seus, mesmo com a distância. Apesar da tristeza, ainda era Natal. Depois da caça ao tesouro, já tradicional, a pergunta veio com ternura e preocupação: “Quem vai representar o Papai Noel?”

Depois de um suspiro profundo, ela pegou o gorro vermelho e, por um instante, ainda pensou em colocá-lo na cabeça. Mas olhou para o filho mais novo e vaticinou: “Já que seu pai não pode estar aqui, você é o herdeiro da tradição. O gorro vermelho é seu, é você quem vai distribuir os presentes”. Assim foi feito, e ele distribuiu os presentes das irmãs, separou o seu por último e, antes de abrí-los, juntou-se com as pequenas e deu um desenho para a mãe, que libertou o choro represado por tanto.

Desde aquele Natal, é ele quem usa o gorro vermelho e distribui os presentes para todas as gerações – mais velhas e mais novas – da família.

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