Senhor dos Livros

Quando ele chegou ao pensionato, se deparou com aquele velho rabugento. Se juntasse com os outros moradores daquela pensão de telhas de amianto e cantos de parede mofados, era uma bela fauna de animais humanos, cada um com sonhos e tempos de vida completamente diferentes uns dos outros.

Pouco se falava naquela pensão. A senhoria parecia ter saído de um livro de Dostoevskij, embora viva. Não havia Raskolnikovs nem Razuhmikins. Se havia crimes, não se sabia. Certamente havia castigos, mas naquele silêncio que a convivência forçava, não se dividiam. Amizade era palavra tão apagada quanto qaulquer outro sentimento bom naquele ambiente opressivo.

Entretanto, com o tempo, o gelo foi derretendo e alguns laços foram se formando. Naturalmente, os estudantes, vindos do interior, com muitos assuntos em comum, formaram um pequeno grupo. Ele, com sua história peculiar de vida, tinha mais a ver com o velho rabugento.

O velho sempre carregava um livro na mão. Já passava dos 70 anos, então não tinha forças para faxinar as dependências em comum da pensão. Ele, com a cabeça cheia de ócio, lutando para não se tornar oficina do diabo, precisava passar o tempo. E, ademais, tinha pena do velho fazendo faxina, com o seu corpo já combalido por artrites e bicos de papagaio.

Começou a fazer o serviço do velho, mesmo que ele não tivesse pedido. Um dia, folheou um livro que estava na mesa e fez algumas observações pertinentes. O velho então soube que ele gostava de ler. E sabia o que estava lendo. Como agradecimento pela faxina, deixou um livro na porta do minúsculo quarto dele.

O livro foi prontamente devorado. À medida que as faxinas se tornavam frequentes, os honorários em forma de livro se multiplicavam. De Sidney Sheldon a Kant, tudo era lido com a mesma vontade. Era uma fuga necessária àquela realidade impertinente. O tempo passou e o silêncio foi trocado por algumas palavras, de duas pessoas cúmplices naquela solidão.

Um dia, ele conseguiu um emprego, juntou dinheiro e se mudou do pensionato. O velho permaneceu por lá. Um abraço silencioso, com agradecimento, foi o último ato daquela relação improvável de amizade. Ele se prometeu, assim que estivesse em condições, dar um presente ao velho.

Tempos depois, foi a uma biblioteca, comprou uma coleção especial e luxuosa de livros e fez uma dedicatória. “Ao velho que, mesmo sem saber, me salvou da loucura”. Pegou o carro, foi ao pensionato e descobriu., através de um antigo zelador do prédio vizinho, que a senhoria tinha sido despejada e a casa havia sido vendida e transformada em um grupo de consultórios.

Não conteve a curiosidade e perguntou sobre o velho, se sabiam pra onde tinha se mudado. O zelador disse que a última vez que viu o velho foi saindo em um rabecão, tinha tido um enfarto fulminante e não resistiu. Ele ficou chocado, mas não chorou, embora emocionado. Agradeceu ao zelador e dirigiu a esmo.

Parou o carro no centro da cidade, andou alguns passos e encontrou um sebo. Não vendeu os livros, apenas os doou. Para que, quem sabe, algum dia um velho os encontrasse. E pudesse emprestá-los ou dá-los a alguém, para que este fosse salvo da loucura. Sem vírgulas, nem pontos finais, apenas com reticências…

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