Pavão

Ele sempre foi uma pessoa de sonhos. Um dos maiores era desfilar no carnaval. Sempre sonhou em estar rodeado de plumas, paetês, badulaques e coisas afins. Ele gostava de se maquiar, passar batom e não abria mão do salto alto. Nunca. Até porque isso fazia parte da sua vida. Ele é travesti. Ele – não tecnicamente, mas intrinsecamente – é ela.

Entremeando sua vida entre fugir da polícia, fazer programas, uns bicos de manicure e ser achincalhado por alguns membros da fauna noturna do Rio de Janeiro, ela alimentava esses sonhos carnavalescos dentro de si. Para ser Pinah, Brunet ou alguma dessas divas do carnaval. Quem sabe ser destaque no Gala Gay ou, sonho dos sonhos, ser capa de jornal carioca.

Entre os clientes que ela tinha, havia um que era ritmista. Tocava repique na Arame de Ricardo, uma escola do Grupo C, que desfilaria na Intendente Magalhães, na segunda-feira de carnaval. Vivia chamando ela de minha rainha. O fato de ser travesti, dizia ele, era “só um detalhe”. Mas era aquele homossexualismo seletivo. Ele, ativo, não andava de mão dada, não assumia nada e, quando batia a saudade, ia para o centro da cidade encontrar sua rainha – de cetro e tudo.

Pois ele chegou com a proposta: Arranjaria um lugar para que ela desfilasse na segunda-feira. Destaque principal da escola, com fantasia luxuosa, a melhor da agremiação. Ela ficou exultante com a idéia, já começou a se imaginar sambando. E mesmo que não fosse na Sapucaí e sim no distante bairro do Campinho, poderia gerar alguns flashes. Enquanto devaneava entre surdos e chocalhos, seu parceiro a chamou às falas, havia uma condição.

A condição era que ela pagasse o material da fantasia. A costureira era por conta dele. Pedrarias, biquini, emplastro sabiá. Pros peitos não precisaria de nada, porque aquele silicone pago em 36 vezes estava de bom tom. Mas havia um item caro na fantasia: Penas de pavão. Ela entrou em pânico, como iria arranjar penas de pavão? Ele não se abalou, sabia que era caro, mas sonhos custam um preço. Se levantou pra ir embora, disse que não ia pagar e ela aceitou. Já tinha virado namorado mesmo.

Ficou matutando por dias como arranjar as penas de pavão. Nenhuma idéia. “Puta troço caro”, era a única coisa que pensava. O prazo ia se esgotando e por mais que fizesse programas e complementasse com bicos de manicure, o dinheiro não seria suficiente. Já estava desesperada, o sonho de ser destaque da Arame de Ricardo ia se esvair pelas mãos. Até que teve uma idéia mirabolante. Que tinha tudo para dar errado, mas era sua única chance.

Saiu mais cedo do trabalho naquela madrugada de segunda-feira. Da Lapa para a Central do Brasil, foi a pé, tendo como companhia o barulho dos saltos de sapato. Chegou em frente ao Campo de Santana e olhou ao redor. De um lado os cracudos parecendo figurantes de “Walking Dead”; do outro, mendigos dormindo o sono dos injustiçados entre o barulho dos poucos ônibus e o vento abafado daqueles dias de janeiro. Ela não titubeou mais e pulou os gradis do parque.

Pulou e caiu atabalhoada do outro lado, espalhando as cotias que dormiam nos arbustos. Caminhava tentando fazer o mínimo de barulho, pela grama, já que não abria mão do salto alto. “Sou uma lady, não desço do salto”, costumava dizer no ponto. E levava isso ao pé da letra. Procurou e encontrou sua missão uns 300 metros depois. Um pavão, dormindo ali, solitário.

Ainda pensou em desistir do plano mirabolante. O pavão, coitado, não tinha culpa de nada. Por um momento hesitou. Guardou a navalha, virou as costas, mas quando saiu rebolando pra pular o muro de volta, escutou o repique, a caixa, o pandeiro, o surdão. Imaginou a cauda do pavão enfeitando sua cabeça. Deu uma sambadinha, chegou perto do bicho e o degolou, pra que não tivesse sofrimento. Anos de rua ajudaram no corte quase cirurgico. Muito abatedouro não faria melhor.

Missão cumprida, tirou pena por pena, cantando o samba da Arame de Ricardo. Depenou o bicho todinho, enfiou as penas em uma sacola de supermercado e saiu saltitante às 3 da manhã: “Peguei carona. num balão me encantei/ No trem da alegria. embarquei/ Dominó se encaixava, o cubo eu decifrava /Passou um filme eu pude ver o ET”. No embalo do samba dos anos 80, fazia coreografias. Na hora de subir na grade, o salto quebrou, ela se desequilibrou e cravou a coxa na haste pontiaguda do Campo de Santana, ficando dependurada. Seu urro despertou os cracudos e acordou os mendigos.

Todos ficaram olhando impressionados. Não por muito tempo. Como se fosse ela o pavão, os cracudos levaram todas as suas posses, enquanto ela sangrava. Os mendigos ficaram de chiste, até que a polícia passou por ali e chamou o Samu. Foi retirada, perdendo muito sangue, e recolhida ao Souza Aguiar, autuada em flagrante por furto das penas. O sonho tinha acabado e ela seria presa. Mesmo assim, antes de ir ao hospital, foi fotografada várias vezes.

Ao chegar ao presídio, na hora da identificação, além de ser humilhada por ser travesti, o destino a reservou mais uma surpresa: Jogaram na sua frente um jornal popular do Rio de janeiro, com sua foto na capa e a seguinte manchete: “QUERIA DESFILAR, MATOU O PAVÃO E AGORA SERÁ RAINHA DE BATERIA DO PRESÍDIO”. Ela chorou, resignada.

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