Cerveja

Há quase 15 anos, o ritual sempre era o mesmo. Após algum momento de discussão, normalmente politica, com debates acalorados, sentavam no bar. E aí falavam de assuntos não menos acalorados – mulheres, futebol, iates, comida, dinheiro. Com eles, uma cerveja para acompanhar.

Ficaram muito amigos, daqueles que entram em sintonia. Sintonia do tipo sofrerem um acidente ao mesmo tempo, em cantos diferentes da cidade, num fim de semana. Por obra e graça do destino, todos saíram ilesos. E na segunda-feira, todos estavam mancando e demolidos. E tomaram uma cerveja pra comemorar a vida – não estavam dirigindo àquele dia, nem sabiam dirigir.

E depois, tomaram cervejas e porres de desgosto, ou com gosto, e até mesmo a contragosto. Enquanto houvesse fígado, e este regenerasse. Beberam e brigaram juntos por tudo e por nada, desde que tudo valesse a pena – inclusive nada. Uma vez, no sul do país, um acertou um belo gancho no queixo do outro, que tentava separar uma briga. Um “filho da puta” de cá e um “desculpa” de lá e estavam eles fazendo o de sempre – tomando cerveja.

Brigaram pra se formar na faculdade. Tiveram dificuldades, demorou pra se formarem, a história como espelho. Tiveram vontade de desistir, mas foram até o final. E depois largaram o diploma, seguindo para outros caminhos, onde se encontraram profissionalmente. E conversam sobre isso até hoje.

Amadureceram, sofreram, a amizade só se consolidou. Um foi embora pra longe, o outro ficou. Não conseguiram ir ao casamento do outro, faltou grana pra ambos. Seguiram se apoiando à distância, até que a grana melhorou – pra ambos. Hoje conseguem se rever regularmente. Um está solteiro de novo, outro está cheio de filhos. Tomam sempre uma cervejinha pra botar o papo em dia.

Ambos com cabelos brancos, já não tão magros como no século passado. Ainda mais amigos, irmãos. E, agora, compadres. Não bebem mais como antes, nem aguentam. O gosto mudou, as cervejas agora são diferentes. Em vez de quantidade, bebem por gostar, pra conhecer a bebida, pra solidificar a amizade que começou lá atrás.

Naquele abraço de despedida, a certeza de se encontrarem de novo, em breve. Amigo é família que se faz pelas esquinas da vida. E isso eles são. Amigos, irmãos, compadres. E, certamente, mesmo de longe, vão abrir mais uma cerveja pra comemorar.

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