Cabelo Rosa

– Oi. Tudo bem?
– Tudo ótimo. [beija]
– Como foi seu dia? Como está o Miúdo?
– Tudo corrido, mas todos bem. Miúdo está meio molengotengo por causa vacina, mas bem.
– Cadê ele.
– Está dormindo e vai continuar assim.
– Gosto dessas sugestões sutis e delicadas, como se fossem um comercial de sabonete.
– Apenas a verdade.
– Cadê a Pequena?
– Tá no quarto.
– Tudo bem com ela?
– Tudo ótimo, incl…

[Pequena chega na cozinha]

– Mãe, aqui está a tintura pra descolorir a ponta dos cabelos. Vamos fazer agora que Miúdo está dormindo?
– Desc… desc… como é que é?
– Então, era o que eu estava tentando dizer [olha pra Pequena com aquela cara de “porra, cê fez cagada”], nós fizemos um pequeno trato e eu a deixei pintar as pontas do cabelo de rosa.
– Hum. Entendo. Conte-me mais sobre este “trato”.
– Eu e mam…
– É melhor eu falar, minha filha. [aquele olhar de “agora o bicho vai pegar”]
– Tá, vou ali descolorir o cabelo.
– Ei, ei, ei
– Deixa a menina ir. Escuta.
[olha com aquela cara de “véi, você traiu o movimento”]
– Eu fiz um trato com ela, naquele momento em que ela estava no pau da goiabeira pra passar de ano.
– Veja bem, estar no pau da goiabeira pra passar de ano ocorre desde o Jardim III. Isso não é desculpa. Mas qual foi o trato?
– Se ela passasse sem conselho de classe, apenas no estudo, eu a deixaria pintar os cabelos de rosa.
– Hum.
– Mas só as pontas, porque se ficar horroroso podemos cortar.
– Sabe o que é isso? É influência daquele ex-namorado de cabelo azul, figurante de desenho do Smurf.
– Inclusive ela já está com um novo pretendente, oriental.
– Pinta o cabelo?
– Não, acho que não.
[Pequena lá do quarto: “descolore de vez em quando pra fazer cosplay”]
– Um japonês com cabelo de Ivo Meirelles? É o Nakata?
– Que Nakata?
– O jogador de futebol.
– Sei lá quem é Nakata. Filha, pesquisa o Nakata no google.
– Nakata é feio que dói, mãe. Ele tá me sacaneando. De novo.
– Pare de sacanear sua filha, ela está de férias.
– Tá. E esse cabelo aí?
– Ué, ela vai pintar.
– Podia ter me avisado.
– Nessa correria, a gente acaba esquecendo.
– Hum…
– Veja só, ela tem 15 anos, adolescente, a hora dela fazer essas cagadas no cabelo é agora. Depois de velha é que não dá pra fazer. Veja você, que usava mais brinco do que vitrine de loja de bijuteria e mais anel do que puxador de escola de samba, quando era moleque?
– Olha a palhaçadinha…
– É sério. Eu também tive meus arroubos na juventude.
– Seu cabelo parecia o da Elba Ramalho.
– Você quer apanhar?
– Opa, já não está mais aqui quem falou.
– Aproveite que não está mais aqui e leve o lixo lá fora. E passe o café também.
– Parece justo. Filha?
[ela vem do quarto, com a ponta dos cabelos em processo de descoloração]
– Você vai ficar parecendo uma personagem de Zillion.
– ?!
– Pesquise, jovem. Pesquise.
– Tá.
– E, ó. Mesmo de cabelo rosa, eu te amo.
– Eu também te amo.
– Depois você me conta quem é o Jiraya que está querendo te namorar.
– Essa é uma outra história…

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4 opiniões sobre “Cabelo Rosa

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