O Show do Ney

Eles eram casados há muito tempo. E desde que eram noivos ela nutria uma paixão desmedida pelo Ney. O Ney, claro. Ele não entendia o porquê dessa fixação, quase fetiche no Ney. O Ney, era o Matogrosso. E na cabeça dele, antes de ser Ney, era gay. E ainda cantava com voz fina.

Ela cantava todas as músicas do Ney. Tinha a época dos Secos & Molhados, a época do lobisomem, cantando Chico, cantando Cartola, cantando todos como ninguém. Ele, que apreciava boa música, evitava criticar porque até preconceito tem limite e, na verdade, o Ney era bom mesmo. Mesmo assim, quando ela começava com “quero ir no show do Ney“, ele ficava irritado.

Da primeira vez era no meio de semana e ele tinha trabalho, seria complicado; na segunda vez inventou um mal-estar, uma caganeira, uma virose; da terceira, falou que não queria ir; na quarta foi mais outra desculpa e então uma novena de escusas para nunca ir ao show do Ney. E ela cada vez mais apaixonada pelo Ney.

Quando completaram 15 anos de casados, ela recebeu uma jóia linda de presente. Sorriu, agradeceu e entregou um envelope a ele. “Seu presente”. Ele abriu, meio cabreiro. Eram dois ingressos pro show do Ney. Olhou pra ela incrédulo, entre o pânico e a raiva, com Carmina Burana tocando entre seus neurônios. Ela, impassível, disse: “Este é nosso presente de aniversário de casamento, o show do Ney. E eu vou, com você ou sem você.”

Não adiantou fazer muxoxo ou argumentar, ela estava decidida. Pra piorar, avisou à família toda que ela iria ao show do Ney. Com ele de acompanhante. Já era conhecido o discurso anti-Ney que ele fazia nos almoços de domingo em família, começando no homossexualismo e terminando na voz fina. Interessante dizer que quando falavam que Ney era ótimo cantor, ele não refutava, apesar de lamuriar.

E foram ao show. Ao chegar lá, ela se encantou desde a primeira música, o primeiro balanço, o primeiro sacolejo. Ele estava incomodado, como se estivesse com supositório na alma. Depois o primeiro bloco de músicas, começaram as mais conhecidas e ele não se aguentou: primeiro cantarolava, depois batia o pezinho, depois se permitiu até a dançar junto, cantar de olhos fechados e pensar nas crianças, inclusive as mudas e telepáticas. Ney ganhou um fã.

Voltaram felizes e extenuados, mas ele não comentou nada do show. Os dias se passavam e ele calado. Também não criticava mais. Até que em um almoço de domingo, todos reunidos, o assunto veio à pauta. Primeiro de forma velada. Uma cervejinha pra lá e outra pinga pra cá, foi o que bastava pra um dos irmãos, aquele que geralmente vale menos que um ponto em mega-sena, fazer a pergunta:

“- E aí, gostou do show do Ney? Você não tinha tanto questionamento? Agora taí, caladão, não fala nada. Se encantou?”

Ele parou, suspirou com calma. Olhou nos olhos do seu velho parente e amigo e disparou:

“- O show é ótimo, ele é excelente no palco e hipnotiza a qualquer um. De vez em quando me pego sonhando com ele sendo meu namorado.”

Irrompeu a gargalhada no almoço de família. Ela, até hoje, o provoca dizendo que tem dúvidas se o convida a mais um show do Ney, com “medo” de perder o marido.

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baseado num causo de Juliana Damasceno.

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