Tribord

Pra onde os olhos dela apontam? Dentro de si mesma, ela costuma se perder. No labirinto do seu próprio pensamento, entre enigmas tão simples que se tornam pura complexidade, ela anda em círculos. Líder de si, pertencente a ninguém. E silencia.

Ela gosta do silêncio. A partir dele diz suas maiores sentenças, faz suas maiores declarações, abre seus maiores sorrisos e chora suas lágrimas mais sentidas. Assim, discreta, sem ninguém saber, apenas quem a observa atentamente. Ela gosta da sensação de pairar no ar, como se integrada na paisagem. É uma maneira de se proteger e proteger a quem preza.

Prezar. É uma palavra a qual ela valoriza. Assim como amar, navegar, voar. Ela é livre, gosta de ser livre. Desafia seus interlocutores sempre a decifrá-la, embora muitos percam o embate no primeiro impulso. Tentam discorrer relatórios e tratados sobre seus sentimentos quando bastaria uma aquarela de poucas matizes para desvendar todo o quadro. Ela ri, quase debochadamente. Sempre silenciosamente, como se estivesse nas pontas dos pés.

Pés. Ela anda, desanda, desmanda. Já correu o mundo inteiro e enfrentou suas próprias tormentas, muito mais poderosas que as marolas que a vida teima em empurrar. Aliás, as tormentas às vezes voltam, como temporais ou monções, mas ela não se abala. De pés descalços na alma, mira o olhar no horizonte, duas jabuticabas olhando para o futuro, diretamente do quintal da alma.

Alma. Parece estranho quando ela fala disso. Tão reservada quanto expansiva, guarda seus diamantes e sonhos no meio do carbono que todo mundo vê. E aproveita o grafite pra rabiscar o futuro que quer, um futuro de paz. Já perdeu tanta coisa escorrendo pelos dedos que vislumbra todo lucro com cuidado. Não comemora vitórias prematuramente, assim como não alardeia derrotas. Suas cicatrizes deram força e parcimônia. E ela só quer viver.

Viver em paz, buscando a paz. Por mais que pareça um livro denso, é apenas palavra cantada e coberta por véu. Basta ter a chave certa para abrir seu melhor sorriso e desvelar todos os véus. Enquanto isso não ocorre, ela navega, voa e rabisca. E sorri, quase debochadamente. Sempre silenciosamente.

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