Médico

Eles já tinham decidido ir para a festa. Seria à fantasia. Aquelas coisas interessantes que ocorrem quando se está na faculdade. Foram chamados de última hora e não tinham muito tempo para descolar os costumes. Um deles decidiu ir de bonequinho Johnson. Roupão azul, sunga, touca. Coisa rápida, tinha tudo em casa, pegou da mãe. O outro decidiu ir de médico.

Pegaram o endereço. Era longe pra cacete. Estavam em Laranjeiras, a festa seria em Nilópolis. Ficaram de dar carona a mais um amigo, que iria de trocador de ônibus. Marcaram um horário no início da noite. Foram pra praia, deram aquela relaxada e depois se arrumaram. Faltavam duas semanas para o Carnaval, o Rio já estava inebriado pelo confete e pela serpentina.

Se arrumaram. Já iam descer pra sair. A mãe de um deles pediu ajuda para trocar uma lâmpada. O que estava vestido de médico, filho dela, ia dirigir. O bonequinho Johnson então se dispôs a ajudá-la enquanto o outro manobraria o carro que estava estacionado fora do edifício. Em 5 minutos, se encontrariam na portaria. Tudo organizado.

Quando ele desceu, entretanto, a rua estava lotada. Uma confusão absurda. Buruçu formado, procura saber informações. É colhido por uma pergunta direta, entretanto:

“Doutor, pelo amor de Deus, acode aqui?”
“Ahn?”
“É, Doutor. Porra, acode aqui! Um rapaz tomou um tiro!”

Ele não entendeu nada, mas já o estavam levando para o epicentro do vuco-vuco. Um rapaz tinha sido assaltado no carro e tomou um tiro no ombro. Estava vivo, mas respirava com dificuldade. Todos os transeuntes olhavam para ele como se fosse um enviado de Deus. Entre abobalhado e apoplético, tentava balbuciar algo. Tinha apenas um estetoscópio com ele, para compor a fantasia.

“Doutor, faz alguma coisa!”

“Doutor?”
“Eu… não sou médico. Estou só fantasiado.”
“O que?!”

A confusão estava formada. Ninguém acreditava nele. Havia um barbudinho vestido com camisa de movimento estudantil que começou a chamá-lo de capitalista, oportunista, porco sanguinário, filho de Lúcifer e outros impropérios menos cotados. Todos da rua não entendiam o que estava acontecendo, e porque ele estava se recusando a atender. Ele apenas repetia que não era médico. Se prontificou a ligar para o SAMU, mas isso não bastava para a turba enloquecida que estava prestes a linchá-lo.

“Que má vontade, porra! Você não prestou juramento quando se formou? Não tem vergonha?”
“Mas eu não sou médico!”
“É sim, porra. Canalha! Está até com estetoscópio!”

Neste meio tempo, depois de alguns minutos muito apreensivos, com ameaças aumentando de volume, chega ele, vestido de bonequinho Johnson, no meio da confusão.

“Cara, que porra está acontecendo aqui?”
“Um rapaz tomou um tiro e esse médico não quer ajudar”

Ao ver o dedo de seta apontado para o amigo, ele só não gargalhou por respeito ao ferido.

“Caras, ele não é médico. Olha eu vestido de Bonequinho Johnson, ele vai a uma festa comigo.”

Todos se entreolham e por um instante a histeria pára. Voltam a si, pedem desculpas timidamente e o SAMU chega no exato instante, para atendimento. O caso inspirava cuidados, mas o rapaz sairia vivo daquela triste amostra da violência carioca. Sentaram no carro e ainda ficaram em dúvida se iriam à festa, mas decidiram ir assim mesmo, depois de muito tempo de conversa, pra tentar salvar a noite.

* * *

Ao chegar em Nilópolis, estavam um tanto quanto perdidos, avistaram um trocador de ônibus na rua e pararam pra pedir informação.

“Trocador, por favor, poderia me informar onde fica a Rua X?”
“Eu quero que vocês vão pra puta que pariu, porque fiquei esperando vocês duas horas por vocês e vocês não avisaram porra nenhuma!”
“Cara, entra aí que a história é longa”

O “trocador” era o amigo que haviam esquecido de dar carona, ao qual explicaram cada ponto da história até chegar na festa, onde, finalmente, trocaram as cenas de violência urbana por confete, marchinhas e serpentinas.

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