18:34

– Fala, meu irmão.
– Fala!
– Diz aí, tudo bem?
– Mais ou menos.
– O que houve, cara?
– Ah, preocupações.
– Que foi? O que a vida te apronta?
– Eu estou chateado com algumas pessoas, que falam que não gostam de mim; com o mundo, que não é um lugar agradável pra se viver, com essa injustiça que anda a cada esquina. E pra completar, eu bati meu carro.
– Vamos começar do final. Eu também bati meu carro. Mas você taí, vivo bem e com seguro. No fim das contas é o que importa.
– É verdade. Carro a gente compra outro.
– Então isso não é um problema. Vamos aos outros. Me conte esse negócio das pessoas não gostarem de você.
– Ah, cara, é assim: [e conta detalhadamente sobre os casos]
– Cara, quer uma cerveja? Até pra molhar a boca seca e tirar o gosto amargo da desilusão – e isso é mal?
– Sim.
– Olha, o tempo ensina muitas coisas. A principal delas é deixar de se importar com o que os outros pensam de você e começar a se importar com o que interessa, quem você gosta.
– Hum.
– Prosaico, né?
– É.
– Por isso mesmo, algo complexo. Quanto mais simples algo é, mais a gente tende a complicar.
– Faz sentido.
– Pare de se preocupar com esse tipo de coisa. Dá azia.
– É. Vou pedir mais uma cerveja. Quer?
– Quero. E sobre o mundo, cara…
– O mundo tá um lugar muito chato, as pessoas estão muito grosseiras, muita violência, muita gente querendo impor opinião.
– Hum. Entendo.
– E isso me incomoda profundamente.
– A única coisa que mudou no mundo foi a informação, cara. Ela voa. E isso revela mais gente grosseira, mais violência, mais imposição. É apenas a amplificação de algo que antigamente era acústico.
– Mesmo assim é chato pra caralho.
– É. Mas a gente também não pode se colocar como Messias de uma situação de mundo ideal. O mundo é formado por pequenos mundos de individualidades. As pessoas têm de saber, por si só, discernir o que é certo e o que é errado. Tentar intervir neste caminho, além de dar úlcera. Faz com que a gente pareça chato. E talvez a gente seja mesmo.
– Pois é. Mas eu tenho um ponto.
– Pois diga.
– Não dá pra viver sendo tão leve sempre, a gente tem que ser inconformado.
– Sim e sim. Entretanto, não dá pra ser um zeppelin de chumbo, é preciso flutuar, senão nos estabacamos no chão. Ver as coisas por uma perspectiva menos sombria torna a úlcera evitável.
– Hum.
– E inconformismo é mola do mundo. O fato de sermos leves não significa sermos resignados. Esse é um dos pressupostos da velhice, aliás.
– Você tá ficando um velho relaxado.
– E você um velho chato. Prefiro ficar na minha, poupa stress e infarto.
[gargalham]
– Um dia vamos acabar com a injustiça no mundo?
– Não. Mas podemos tomar muita cerveja ainda. Você pode tentar ser Pelé ou Garrincha nessas coisas de utopia.
– Como assim?
– Pelé foi o melhor do mundo, fez coisas inimagináveis, mas no fim das contas, fala um monte de bobagem e sempre tem um Maradona pra incomodar.
– E Garrincha?
– Garrincha jogava pra cacete, era cheio de idiossincrasias, viveu como quis viver, não fez mal a ninguém além de si mesmo e é lembrado com carinho por alguns e tristeza por outros.
– E daí?
– Pelé é o ideário de perfeição, Garrincha tirou muita onda.
– Você quer ser perfeito ou quer viver como acha certo?
-…
– Cada dia é um dia, cara. E o mundo é aquele pedaço em que vivemos. Se mudarmos isso, o nosso pedaço, o resto vai mudando junto.
– Você está muito filósofo.
– Deve ser a cerveja.
– Gostei desse negócio de Pelé e Garrincha.
– Sabia que faria efeito.
– Palhaço.
– Aproveite este conselho e pague a conta. Já que você quer mudar o mundo, pelo menos me deixe com dinheiro.
– Filho da puta.
[gargalham]

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