Diagnóstico

– Doutor?
– Pois não? Qual seu problema?
– Não estou me sentindo bem, acho que vou morrer.
– Antes de te examinar, já tenho uma boa notícia. Todos vamos morrer.
– Sério, doutor.
– O senhor é médico?
– Não.
– Então se poupe do seu diagnóstico. Quais os sintomas que você tem?
– Uma tosse seca, às vezes com sangue, sempre gripado resfriado, de vez em quando febre.
– Hum.
– E aí, Doutor?
– E aí que eu vou te examinar.
– Pode ser o que?
– Pode ser tudo, inclusive nada. Você fuma?
– Fumo.
– Quanto?
– Muito.
– Eu também fumo.
– Fuma?
– Sim.
– Mas o senhor é médico.
– O lado bom é que posso me auto medicar. Quer um cigarro?
– Mas, Doutor…
– Estou sendo educado. Quer ou não?
– Aceito.

[fumam o cigarro]

– Mas me diga, Doutor, pode ser o que?
– Uma das possibilidades é câncer.
– Câncer? Ai meu Deus!
– Pode ser também um resfriado. Ou sua hipocondria. Preciso avaliar.
– Nossa senhora. Tantos sonhos, tantos momentos, sou muito novo, Doutor.
– É nada. Já viveu bem. Mas antes do drama e desse momento de redenção, é melhor fazer os exames. Vou pedir pro meu residente encaminhá-los.
– Certo.
[passa uma lista de exames detalhados]
– Daqui a duas semanas saem os resultados.
– Obrigado, Doutor.

* * *

– Aqui estão os resultados.
– Eu tô bem, Doutor?
– Nada demais, mas podia estar melhor.
– Vou ter de parar de fumar?
– Esta é uma liberalidade sua. Você quer?
– Não consigo.
– Então não pare.
– Obrigado.
– Sugiro que você procure uma segunda opinião
– Estou satisfeito com a sua.
– Tem certeza?
– Sim.

* * *

– O senhor devia ter dito que ele tem um câncer irreversível.
– Ué, os exames estão dizendo, falei pra procurar uma segunda opinião, ele não quis.
– Mas não foi porque confiou em você
– Bobagem. Não foi porque eu falei o que ele queria ouvir.
– Dá no mesmo.
– Não dá não.
– Me conte, por que não contar a ele do câncer e dos 6 meses de vida?
– Porque ele iria se desesperar, entrar naqueles cinco estágios do luto, fazer um monólogo digno de Sessão da Tarde, definhar e morrer antes do previsto.
– Hum.
– Agora vai viver, fumar, se divertir, ser o mesmo que sempre foi e depois ser internado, quase morto e morrer, tendo feito todo o possível pra viver.
– E o juramento de Hipócrates?
– Bem, não o descumpri. Mas prefiro a hipocrisia da alegria a um juramento que julga.

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