Marciano

“Eu vim de Marte. Um dia, volto pra lá.”

Era assim que ele se apresentava sempre. Aos olhos dos transeuntes, um mendigo louco que perambulava pela Zona Sul. Os moradores mais antigos se apiedavam dele e até gostavam daquelas estórias surreais com discos voadores, seres de cores diferentes que podiam se transformar na forma humana e que viviam na sociedade, geralmente em cargos de destaque.

Ele sempre recebia comida, roupas, água e, mais importante, um sorriso desses moradores antigos. As crianças troçavam dele, o chamavam de “Marciano”. E ele sempre saía correndo atrás delas, tomando cuidado para, no passo mais lento que o possível, jamais alcançá-las. Quando elas sumiam da vista, ele sorria, complacente.

A convivência era plena e pacífica entre a sociedade e aquele corpo estranho travestido de pedinte, que, ao contrário do normal em todo e qualquer lugar preconceituoso, não causava estranheza e já estava integrado à paisagem.

Embora fosse mendigo, ele tinha seu cantinho. Um barraco de compensado, mas com contornos de arquitetura de guerrilha cuidadosamente organizados, de modo que não houvesse sujeira, nem bichos. Não era um puxadinho, era uma edícula, diriam publicações do meio. E carinhosamente decoradas com pôsteres de discos voadores e, em algumas delas, cobertas por letras ininteligíveis, tatuando aquele emaranhado de compensado transformado em paredes.

A cidade receberia um evento dali a alguns meses, e o prefeito começou uma série de obras ao estilo assombração: sem pé, nem cabeça. Junto com as obras, chegou a guarda municipal. E a polícia. Conforme iam avançando, chegaram perto do barraco do pedinte, que estava brincando com as crianças na praça, sorrindo para os habitantes antigos e contando suas histórias sobre o sistema solar e seus habitantes.

Ao voltar para seu barraco, não havia mais. Tudo derrubado, queimado. Ainda viu uma dupla de policias gargalhando e soltando impropérios humilhantes em sua direção. Engoliu o choro, mas as lágrimas desceram silenciosas pela face empoeirada. Murmurou: “vou embora”.

Nunca mais apareceu. Os moradores do bairro se preocupam, acham que a polícia fez alguma coisa. As crianças, ao lembrarem dele, dizem que o “Marciano” voltou pra casa. Os adultos não acreditam, mas não duvidam. Sem deixar rastros, deixou apenas saudade. O carro dos policiais que fizeram troça e humilhação bateu em um poste na mesma noite em que ele foi embora . Ambos morreram, embora não tivessem ferimentos aparentes.

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5 opiniões sobre “Marciano

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