Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XV – Cachê

Eles sempre tinham um ponto de encontro pós-noitadas, bebedeiras e, certamente, cafajestagens. Aquele bar à beira-mar, na altura do Lido, tinha chopp gelado e havia sido testemunha ocular de grandes romances, quebra-paus e gargalhadas. Nada mais natural de ter se tornado o quartel-general de um bando de canalhas.

Ademais, aquele mesmo bar tinha a característica de ser o local da happy after hour das moças pós-trabalho na Help, na rua, nas boates da Prado Junior e localidades afins. Ao fim do expediente, elas iam pra lá relaxar, partilhar experiências, beber um chopp gelado e paquerar.

Sim. Paquerar. Porque trabalho é trabalho, romance é romance, amor é amor e um lance é um lance. Ali era campo neutro, fora do horário de expediente. Um xamego e um xodó valiam tanto quanto algumas notas de dólar amassadas. Unindo o útil ao agradável com o chopp gelado, muitos casais fugazes de apenas uma noite se formaram naquelas mesas e balcões.

Muitas vezes nem se viam mais. Em algumas viravam casais eternos, leais, ciumentos e confidentes com a duração de poucas horas. Ninguém esperava nada daquele fim de noite, que poderia se tornar a parte mais interessante da saída. Certa vez, eles estavam no bar e já começavam aqueles movimentos típicos do xadrez entre os possíveis casais. Um deles, observando – e bebendo – fixamente seu sexto chopp, viu adentrar uma mulher estonteante.

Com sorriso de comercial de pasta de dente, simpatia de comercial (011) 1406 e uma malemolência que faria Michael Jackson ter uma ponta de inveja, ela pediu um chopp como se estivesse em um filme francês, tamanho charme. Ele a observava e já tinha engatilhado todo seu estoque de cantadas para que pudesse observá-la. Ela o fitou nos olhos e naquele momento tudo parou, virou clichê, tocou música de Julio Iglesias e filme de John Woo, com todos os presentes em câmera lenta.

E ele gastou sua saliva, seu repertório, seu latim e ela se mostrou muito acessível. Ela sapecou-lhe um beijo na boca, tão inesperado quanto correspondido. Galvão e seu “É tetra!” já ecoavam em sua mente. A vitória estava quase garantida. Tomou coragem e a chamou para da um passeio.

Era a senha para ser feliz. Se levantou, os amigos bateram palmas. Era o gol do fantástico, o assunto que permearia a mesa de bar por dias, semanas e seria lembrado nas próximas gerações. De mãos dadas, na porta do bar, começam a travar um singelo diálogo.

– Meu amor, você vai me levar pra onde?
– Naquele motelzinho ali, é simples, mas gostoso. Vamos curtir o momento e depois ver o amanhecer no
Arpoador.
– Tá. Mas olha, meu cachê é de R$ 250,00

Cachê?! Cachê?!?!?! Havia uma regra não-escrita na qual não se cobrava cachê ali. Ela estava ferindo a regra. Mas naquela hora, não poderia recuar. Não havia dinheiro suficiente para o cachê, apenas malemolência para curtir a situação. Tinha de pensar rápido. E pensou.

– R$ 250,00?! Tá bom.
[ela o beija demoradamente]
– Minha gata, vamos nessa, mas você está me devendo R$ 50,00.
– R$ 50,00?! De que?!
– Meu cachê é de R$ 300,00. Já que você faz por R$ 250,00, te dou um abatimento e você só me deve R$ 50,00.

O estampido do tapa na cara foi ouvido no bar inteiro. Enquanto ele era xingado, as amigas explicavam que naquele bar não era hora de trabalho, mas sim de descanso. Até os mal-entendidos serem desfeitos, foram alguns minutos.

Ela decidiu ir pra casa, não sem antes se desculpar e dar o telefone a ele, caso ele precisasse de um relax depois. Ele foi consolado por uma amiga dela, que se sentiu compelida a reverter o quadro. E os amigos gargalham e contam essa história até hoje.

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O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

O capítulo XI dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Consórcio”, está aqui

O capítulo XII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Toalha”, está aqui

O capítulo XIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Miscelânea”, está aqui

O capítulo XIV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Putão”, está aqui

 

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2 opiniões sobre “Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XV – Cachê

  1. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XVI – Das Fraudes | Cotidiano e Outras Drogas

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