Pescador

 “ – Mas o homem não foi feito para a derrota – disse em voz alta. – Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”

[“O Velho e o Mar”, Hemingway]

Eles tinham saído às 6 da manhã pra pescar. Naquele domingo ensolarado, tudo levava a crer que espairecer era a única intenção. Mas não era. Afinal, se vai pescar, além da bebericagem, tem de se trazer um peixe,  pelo menos pra fazer jus à fama de pescador.

Já tinham se passado três horas desde o começo da pescaria. Nada de peixe. Naquela placidez entre a foz do rio e mar, o barulho do vento e uma certa melancolia de uma derrota anunciada permeavam o ar. Lançou a vara o mais forte que pode, com uma convicção não lá muito convicta de que tudo daria certo.

Já escutava o carinho dos amigos no barco, com suas ironias típicas e algumas soluções para o fracasso, quando sentiu a vara prender em algo. Tuin. Aquela onomatopéia clássica de que fisgou alguma coisa. Esperou se debater, não se debatia. “Deve ser grande”, pensou. Foi puxar calmamente, não conseguiu. “Além de grande, pesado”. Começou a suar.

Os amigos, vendo aquela movimentação que chegou a balançar o pequeno barco, ficaram entre preocupados e estupefatos. Ele conseguiria um peixe grande. Mal pegava um xaréu e podia sair dali com um mero. E um mero, convenhamos, não é pra qualquer pescador pegar. Até porque, se pegar, tem de devolver, porque é raro, raríssimo, mas a fama fica mais afiada que arpão de pesca submarina.

Naqueles minutos de batalha, começou a divagar sobre o que faria com o peixe. Viu a bateria do celular, pra saber se havia autonomia suficiente para tirar fotos. Pescadores de barcos próximos começaram a parar e prestar atenção naquele embate entre o homem e a natureza. Se sentiu Santiago, o pescador de “O Velho e o Mar”. Era o seu momento, sua luta particular.

Tentou evitar a empolgação, mas não conseguiu. O máximo que tinha pego na sua vida pregressa de pescador era um linguado, o qual inutilizou ao tentar tirar um anzol com uma caneta Bic, que estourou dentro do peixe, o transformando num polvo artificial. E olha que linguado é uma bela carne. Enfim, eram águas passadas, agora era seu clímax.

Três horas de batalha. O sol já se espreguiçava para ir embora, as pessoas se acumulavam para saber o desfecho daquilo e todos queriam ver o tamanho do peixe. Ele não tinha mais forças para brigar com o bicho, já estava fatigado e cansado. E aquelas cervejinhas anteriores faziam seu efeito, junto com a pele curtida pelo calor inclemente do domingo.

Um pescador submarino, antes do pôr-do-sol, sugeriu ajuda. Desceria até lá, ao menos pra ver o peixe. Combinaram de não matarem o bicho. Aceito o auxílio, ele mergulhou. Depois de dois minutos, suavemente, a linha subiu. Sem nada.

O mergulhador voltou. Entre tímido e constrangido, anunciou: “Seu anzol tinha se prendido numa pedra”. Depois de tanta luta, ninguém riu, ficaram complacentes e solidários, mas ele sabia  que esse seria o causo do resto do mês, lembrado por todos os tempos. Respirou fundo, conformado. Saiu dali, passou no supermercado e comprou um peixe pra levar pra casa.

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