Encruzilhada

Eles se conheceram em um churrasco, no qual conversaram e tocaram juntos. No fim da festa, uma carona e ali nasceria uma grande amizade. É importante ressaltar que nesta mesma noite, bateriam o carro a 120 km/h na Linha Amarela, quase morrendo, o que deixou a impressão de que eram amigos de outras vidas – já que esta quase acabara ali.

A partir dali, os dois viraram amigos-irmãos. As famílias se conheciam, as namoradas também, e quando solteiros faziam uma dupla infernal. Nunca disputaram mulher, e, quando faziam um som, se complementavam; um no violão, outro no vocal. Eram muito diferentes entre si na maioria das coisas, embora fossem extremamente iguais no que havia de mais importante.

Um flamenguista, outro vascaíno; um suburbano, outro da Zona Sul; um aventureiro, outro mais seguro; um completamente louco, de infantaria, outro mais estrategista; um sonhador, outro pé no chão; um negão sambista, com voz de soul; outro branco roqueiro, com guitarra de blues. Ambos emotivos, ambos leais, ambos brothers.

Um dia, o carro de um foi roubado, com todos os CDs que estavam dentro. Ele conseguiu recuperar quase todos, menos um, o do Eric Clapton acústico, que já era raríssimo de encontrar nas lojas. O seu amigo tinha este disco, fez a dedicatória e o entregou de presente.

“Porra, você não vai encontrá-lo de novo.”
“Não precisa, conheço e sei cantar todas as músicas de cor. E, além disso, sempre posso pedir emprestado a você e nunca mais devolver.”

Aceitou o presente com uma gargalhada, antes de irem ao bar e encherem a cara, pra depois voltarem e pararem num posto de gasolina, e tomarem a última cerveja, comendo uma empada de palmito, uma combinação tão sui generis que virou tradição e piada interna.

Certa vez, no Circo Voador, um foi dar um rolé e saiu com uma menina; o outro foi dar um rolé e saiu com a mesma menina. Ao perceberem a coincidência, sorriram e um abriu mão da guria, porque o outro estava mais encantado com ela. A guria, que nunca tinha visto aquilo, se sensibilizou e apresentou uma amiga, e foi mais uma daquelas noites memoráveis.

Um se apaixonou, resolveu mudar de cidade e casar. O outro sentiu falta. Tempos depois, começou a namorar também. A namorada dele parecia ser uma pessoa ótima, mas havia claramente um distanciamento e um ciúme da amizade dos dois. Recebeu o convite para ser padrinho de casamento, viajou com a namorada nova e foi ao casório. Era uma cerimônia ecumênica, incomum, o padre faltou e ele assumiu o microfone e acabou casando o amigo. Eram compadres.

Tempos depois, foi ele quem resolveu casar. O amigo retribuiu a ida, mesmo não podendo levar a família, por questões logísticas – leia-se grana. Mas foi à festa, foi compadre, comandou o corte da gravata e quase arrecadou o valor de uma cerimônia nova. Sempre foram entrosados nisso. Sorriram, se divertiram, se despediram com um abraço fraterno e as palavras de sempre.

“Fica bem, pai branco”
“Vai na paz, filho preto”

Pai branco e filho preto, que variava para pai preto, filho branco, bastava saber quem estava na situação difícil e quem precisava da ajuda de quem. Era quase um código. Mal sabiam eles que aquele abraço seria o último abraço que dariam. A partir do momento em que um viajava para o Rio de Janeiro constantemente, o outro não aparecia mais. Não atendia mais aos telefonemas. Coisa estranha.

Tentou uma, duas, três, cinco vezes. A partir daquele momento, desistiu de tentar. Quando um outro amigo em comum intercedeu, não teve resposta, apenas silêncio. Lembrou daquela música de Eric Cplaton, daquele CD quem ambos gostavam e que tinha virado um símbolo daquela brodagem:

“… Nobody knows you
When you’re down and out.
In your pocket, not one penny,
And as for friends, you don’t have many.”

Os anos se passaram e nunca mais se falaram. Ainda hoje torce para que esteja tudo bem com o amigo, e tem certeza de que isso é recíproco. Espera que esteja tudo azul, tudo em paz, que ele continue a pessoa iluminada e bacana que sempre foi.

Um dia, em uma dessas redes sociais, ele recebeu um pedido de amizade, do amigo de tanto tempo. Lembrou-se das conversas e do que sempre disse ao seu brother: “Alguém sair e bater a porta da minha vida é opção da pessoa. Não reclamo, não cobro e não questiono, apenas lamento. Mas reabrir a porta de volta é opção minha. E não é negociável.” Não reabriu a porta, não se falaram mais. E hoje não sabe mais cantar as músicas de Eric
Clapton de cor.

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3 opiniões sobre “Encruzilhada

  1. Belo texto Arthur! É uma pena quando uma grande amizade se esvai…mas daí surge a pergunta: Será que realmente foi grande algum dia? Ou tratou-se apenas de um momento iluminado no convívio entre os colegas, dando a entender que era algo maior?

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