Cebola

Ele sempre fez sucesso. Bom papo, boa conversa, sorriso franco. Não era bonito, mas era cercado de pessoas. Mesmo assim, se sentia isolado. E se guardava em camadas, como cebola. Não era todo mundo que podia ver tudo. E talvez fosse melhor – pra si e pra outrem. Rodeado de gente, ainda assim se sentia só.

E quando se sentia só, não se achava querido por ninguém. Pensava que era apenas mais um neste mar de pessoas que transita e trafega pra lá e pra cá. No seu olhar terno e triste, poucas vezes brilhava a pupila. Não que não houvesse luz, mas havia sempre um eclipse emocional e questionador à espreita.

Nos diálogos que travava com si mesmo, argumentava sobre sociedade. O que é social? Ser social? O que é “ser”? O que eu sou? Perguntas que tentava responder sob diversas perspectivas e ângulos. Sorria pouco, mas sempre francamente. Disfarçava sua tristeza e angústia com uma capa fina e sutil, para que se protegesse da maior das tormentas, a auto-avaliação.

Achava o contato social por si só pura vaidade e sempre tentava escapar dessa armadilha. Se despir disso era a melhor maneira de enxergar o mundo. Transitar assim facilitava reconhecer os iguais. Era míope e astigmático de si mesmo, mas não tinha estrabismo de caráter. E mantinha firme sua decisão de se guardar e se proteger – de si e de outrem – em camadas. Como cebola.

Mal sabia ele que era querido. Muito querido. No mar de gente de todos os tipos, orientações e caráter, havia muitos que o queriam bem e o amavam. Ele não sabia. Ou fazia questão de não saber. Ou fingia não saber. Ou talvez não quisesse acreditar, pra poupar sofrimento. Entre o ranzinza e o sensível, se equilibrava no monociclo da alma, cuidando de suas camadas.

O tempo passou, o céu chamou e ele se foi. Perda sentida. De forma elegante, quase silente, do jeito que, contraditoriamente, gostava de ser, embora sempre estivesse rodeado de gente. E essas pessoas que o queriam tão bem lembraram de cada camada descascada. E a cada lembrança, choraram. Como cebola.

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