Ney

Oi, Ney. Falo com essa intimidade porque você está muitas vezes em minha casa nos fins de semana, pela TV. Então me dou a esse direito. Obviamente você não vai ler essa carta. Eu mesmo não leria, se fosse você. Muitos afazeres, publicidade, coisas mais importantes. Mas mesmo assim eu vou escrever, Ney. Porque há coisas que a gente faz na vida sem pensar no outro. Talvez esta seja uma dessas coisas, embora não muito relevantes.

Sabe, Ney, sempre curti seu futebol. Curti até odiar você quando deixou o meu herói sem pai nem mãe na Vila Belmiro em 2011, mais perdido do que virgem na orgia, antes de fazer um dos gols mais bonitos do século XXI em um dos jogos mais espetaculares desta época, contra meu time. Te xinguei, com muito mais admiração do que raiva.

Não sou afeito a julgamentos, Ney. Gosto dos tons de cinza entre o preto e branco que habitam a vida. Pouco me importam as dancinhas, o penteado, o “toiss”, essas mungangas da idade. É até mesmo natural. Também não me preocupo com os valores astronômicos da sua transferência pro Barcelona, atribuído à conta do seu pai, porque isso não me diz respeito. Quem tem de se preocupar com isso é a Receita Federal, e apenas se houver algo errado.

Também nunca exigi de nenhum ator futebolístico presença social. Ninguém é obrigado a ser ativista, embora seja sempre muito bom defender uma causa com afinco e dedicação. Melhor ainda que seja como fim, e não como um meio de aceitação entre os pares ou para fazer claque. Seu posicionamento foi ainda mais legal por isso. Acredite, Ney, isso acontece em qualquer setor da sociedade. Alienação, voluntária ou não, também é um movimento político, embora muitos discordem, mas isso não é papo pra esta cartinha.

Fiquei muito surpreso e feliz quando Daniel Alves esmerilhou o racismo com um gesto simples, eficiente e de muita altivez. E fiquei muito feliz – como cidadão, como fã, como negro – quando você, Ney, puxou um protesto pela rede social, instrumento que você tinha, para dizer que “somos todos macacos”. Muita gente gostou, muita gente não gostou – e inclusive ativistas cotidianos, de todos os dias, que entendem toda a situação e sofrem na pele os mais diversos preconceitos, se dividiram sobre o fato – mas o debate se instalou.

E, no fim das contas, Ney, o mais importante nestes casos é o debate. Inclusive achei que você tivesse esquecido as declarações de 2010, quando você alegava não ter sofrido racismo por não ser preto, renegando sua cor. Ninguém pode ser refém de opinião errada, as pessoas têm o direito de mudar. E este tipo de coisas acontece com educação, vivência e evolução. Quatro anos é muito tempo, Ney. E você pode – e deve – ter mudado, evoluído e crescido.

Eu gostei da sua atitude, tenho amigos fantásticos que não gostaram e entendo e respeito as razões – coerentes – deles. Mas o debate estava lá, inteiro. Muitos dos seus amigos, “parças”, reforçaram a campanha. Alguns muito babacas, admito. Mas estavam lá reforçando a campanha, de forma espontânea, como sua atitude também havia sido.

Mas aí, Ney – e, impressionante, cara, sempre tem um “mas” nas coisas extracampo que envolvem você atualmente – se descobriu que a campanha era um mote publicitário. A esponanteidade foi pro ralo. Invalida a campanha? Não. Mas a falta de transparência é péssima, Ney. Não é uma falta de transparência como a de sua transferência para o Barcelona, que só diz respeito em primeiro momento a você e ao clube. Você lidou com o
apoio e o sentimento de pessoas. Isso é feio, Ney.

Pra completar, Ney, um de seus amigos aproveitou o momento para vender camisetas do “protesto”. Enquanto uns choram, outros vendem lenços, a vida sempre teve este gancho, o subúrbio ensina. Aí, meu amigo, o que já estava feio virou boné. A atitude brilhante de Daniel Alves continua de pé, a campanha continua de pé, mas e você, Ney? Como fica? Mais uma vez no chão, como se estivesse tomando uma pancada nos gramados, mas dessa vez com certa razão.

Ney, seja mais claro com quem é seu fã. Ídolos não precisam ter caráter ilibado, mas pelo menos precisam ter diretrizes. Os meus ídolos mesmo têm uma série de restrições, mas com certas coisas não se deve brincar. Todos somos macacos, mas por causa da sua falta de transparência, por um momento, todos fomos bananas.

Porra, Ney.

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3 opiniões sobre “Ney

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