Caderno

Naquele caderno anotou boa parte de sua vida. Pelo menos nos últimos anos, descrições detalhadas do que acontecia estavam ali. Repousavam com sublinhados, anotações, algumas poucas rasuras. Ele nunca escrevia a lápis, porque rasuras são cicatrizes das palavras e mostram que um texto tem alma.

No emaranhado de anotações, citações e excertos, algumas coisas que ele escreveu e viveu, outras que amigos viveram. “Moro nos amores que habito”. Gosta desta citação. Sempre se pega pensando nela. É uma boa lembrança. “O silêncio é o melhor dos companheiros”. Era outra grande citação. Foi folheando e relendo cada uma delas, e em cada letra havia uma história, escrita com tintas de sentimentos diversos.

Havia desenhos também. Desenhos são textos muito mais complexos do que parecem. Por entre as linhas curvas e retas, entrelinhas; definindo formas e significados muito mais profundos do que a superfície do papel; desenhos são confissões que não se traduzem. Ele não tinha o dom desenhar, mas sabia o que aqueles rabiscos significavam.

Algumas folhas tinham as orelhas levantadas, como se fossem marcações para lembranças em momentos duros. Como se fossem fórmulas num caderno secundarista, prontas para serem decoradas em momento de apuro. Ele aprendeu com o tempo que decorar não ajuda em momentos de apuro; entender cada folha de um caderno de matérias é muito mais producente. Se pegou perguntando se havia entendido cada folha dali, que era sua aula de vida. Não soube responder.

Chegou ao fim do caderno misturando sorrisos e lágrimas, brilhando os olhos. Percebeu algumas linhas vazias na última folha, seis ao todo. Achou uma injustiça aquele latifúndio improdutivo. Podia desenhar algo ali, podia escrever uma trova, um mini-texto. Será que a caligrafia mudou? Claro que mudou, a caligrafia sempre reflete as cicatrizes do tempo. Não teve nenhuma idéia, decidiu escrever um poema, sem pensar.

No caderno onde desfilei minhas certezas
dúvidas, angústias, virtudes e tristezas
nunca houve espaço para julgamento ou juízo.
Fecho as últimas linhas dele com poesia
que nunca soube escrever e faço assim mesmo com alegria
agora me despeço do amigo, com um lindo e belo sorriso.

E assim o guardou.

 

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