Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XVI – Das Fraudes

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafajestagem como dominante]

Ser cafajeste demanda muito trabalho. É uma arte milenar, burilada e lapidada no âmago da malemolência. Como diria Baden e Vinicius – dois cafajestes notórios – no “Canto de Ossanha”, o homem que diz “vou”, não vai, porque quem vai mesmo não diz. O cafajeste até diz que é, mas nunca parece ser. A cafajestagem é um drink emocional com doses bem divididas de canalhice, cretinice, lealdade e quetais. Uma dose equivocada e dá uma dor de cabeça danada.

Certa vez, em uma mesa redonda formada por cafajestes em remissão – a cafajestagem é um comportamento autoimune, ela pode até estar adormecida, mas nunca sai do interior dos raros hospedeiros – se discutiu a tendência e necessidade atual deste arquétipo. Como é um tipo valorizado, estão tentando vendê-lo como moda, tendência, como se fosse um Nauru do início dos anos 90, uma calça de bali, uma tiara de flores, uma cerveja artesanal.

Portanto, você, leitor ou leitora que tem uma queda inexorável por cafajestes, tem de saber que há fraudes por aí. Em todos os lados, todos os setores. A verdade está lá fora. O cafajeste, tal e qual o papa, é pop. E, vocês sabem, o pop não poupa ninguém.

Hoje, os diários secretos da cafajestagem apresentam pequenos relatos feitos por experts na área, do sexo masculino e feminino, que não serão identificados pela preservação das identidades e da – má – reputação.

São 4 tipos comuns de fraude, que sempre, incontáveis vezes, conseguem engambelar o incauto. Observem essas dicas, pois podem ser muito úteis naqueles momentos garotos, marotos, travessos e podem evitar o gosto amargo da desilusão. [Aviso: Não se pode reclamar de cafajestagem no Procon. Você compra o que você acha que vê]

Importante ressaltar que até cafajestes experimentados já se utilizaram de movimentações fraudulentas. Ninguém é inocente neste mundo, jovens. Então, não é uma questão territorial. Às vezes, é até um mea culpa, ou culpa inteira, quiçá culpa e meia. Importante dizer que a fraude da cafajestagem pode até ser entendida como um tipo diferente de cafajestagem, vegetariana, digamos assim. Não há um julgamento sobre quem usa esta
artimanha. Cada um joga o jogo com a bola que tem.

O cara do violão: Normalmente, sempre há um cara do violão. Ele, nas festinhas, puxando um sucesso da época, para encantar inocentes que acabam caindo naquela ladainha cifrada. Entre lá, si, dó, uma pestana mal colocada, aquele olhar lânguido dizendo que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, querendo demonstrar toda a habilidade musical que o levaria no máximo ao programa de Calouros do Raul Gil. Este é um tipo que hoje em dia normalmente usa barba e canta músicas de bandas pretensiosas, com temas sensíveis demais – pois ele é alguém que chora.

O poeta/escriba/cronista das belezas femininas: Esta é uma fraude refinada. Sempre com aqueles escritos sob medida, como se fosse um tailleur espiritual. Valoriza a imperfeição, a rejeição, o talento, com muita maestria. Como se fosse um disco do AC/DC, faz várias variações sobre o mesmo tema. Conta com a benevolência de quem ouve/lê, porque o discurso encaixa perfeitamente no desejo. E aí, como diria o filósofo moderno, créu. O alvo, inebriado, e já na querência, não tarda a cair. É um tipo mais raro, porque demanda habilidades de escrita, inclusive para fazer a tática Zinho em 94: rodar, rodar, rodar e parar no mesmo lugar – a cama.

O polêmico: Aquele que sempre entra na discussão com uma visão absolutamente diferente de tudo que se viu, imaginando fazer um voleio de Bebeto contra a Argentina em 1989, mas na maioria das vezes elaborando um cruzamento do André Santos. Mesmo assim, chama a atenção pela opinião firme e personalidade forte, dando um ar de sapiência naquele momento da conquista. É uma fraude que exige esforço porque é não é uma fraude-arte, uma fraude moleque, uma fraude toco y me voy. É uma fraude científica, que exige tática para saber o melhor momento para atacar. É a tentativa que a cafajestagem força tenha sucesso sobre a cafajestagem malemolência [no pasarán]

O ativista de ocasião: Essa é uma fraude nova, que veio com a evidência do terceiro setor, das ONGs, da consciência social, das manifestações. Sempre a favor de uma causa que mexa com o seu alvo. Com seu conhecimento tão profundo quanto a banheira do Gugu, vai desfiando palavras de ordem para deixar o coração em desordem. Quando consegue seu intuito, demonstra ser uma pessoa comum, até mesmo com vícios e preconceitos incomuns e aí, parte para um novo ativismo/alvo, com suas botas vermelhas, seu casaco de general, alguns broches e anéis. É um tipo de fraude polêmica – embora faça bastante sucesso, pois envolve um mosaico de personalidade que não nos cabe julgar aqui, nem em canto algum.

Esses tipos andam por aí, entre nós. Podem inclusive ser um de nós. Portanto, ao se encantar com um cafajeste por aí, leitor ou leitora, lembre-se que ele pode ser uma fraude, contra a qual você não pode pedir ressarcimento. Divirta-se, mas fique de olho. Boa noite. E boa sorte.

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O capítulo I dos Diários Secretos da Cafajestagem, “La Bombonera”, está aqui

O capítulo II dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Reveillón”, está aqui

O capítulo III dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Falha”, está aqui

O capítulo IV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Evidências”, está aqui

O capítulo V dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Impedimento”, está aqui

O capítulo VI dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Urucubaca e Pênalti”, está aqui

O capítulo VII dos Diários Secretos da Cafajestagem,”Cultura da Sacanagem”, está aqui

O capítulo VIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Nome Artístico”, está aqui

O capítulo IX dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Churrasco”, está aqui

O capítulo X dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Aniversário”, está aqui

O capítulo XI dos Diários Secretos da Cafajestagem, “O Consórcio”, está aqui

O capítulo XII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “A Toalha”, está aqui

O capítulo XIII dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Miscelânea”, está aqui

O capítulo XIV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Putão”, está aqui

O capítulo XV dos Diários Secretos da Cafajestagem, “Cachê”, está aqui

 

 

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