A Poesia da Paz

Naquele horário, era invariável o mau humor dos passageiros do trem. Superlotado, lento, sem ventilação. A inconveniência sentava e não pedia licença. Aquele dia estava pior. Por algum dos inúmeros defeitos que sempre davam naquele ramal, o trem estava demorando o triplo do tempo para chegar às estações. A paciência, que ali era artigo raro, já tinha descido no primeiro ponto.

Ele estava quieto e reflexivo. Tinha comprado um livro de poesias e lido algumas. Gostava do autor. Inclusive, lembrou de um amigo ao ler a primeira delas. O amigo se emocionou quando ele declamou a poesia. Algo raro pessoas se emocionarem com poesia, pensou. E esboçou um sorriso. Contra seu riso, algumas caras feias, porque, naquele momento, até um segundo de felicidade tomava espaço.

O trem rateou e parou mais uma vez. Um burburinho tomou conta de todos os habitantes daquele vagão, espremidos como sardinhas em lata. Alguns falavam mais alto, outros balançavam a cabeça como se nada esperassem daquilo ali. Naquele horário, os últimos raios de sol banhavam as janelas do trem, se despedindo um tanto melancólicos. O seu poente, que estava tão bonito, passou despercebido.

Ele se ajeitou do jeito que deu. Consegui se escorar em uma das paredes do vagão. Abriu a mochila, não tinha muito para fazer naquele momento e protestar, sinceramente, não soava uma das melhores alternativas. Pegou o livreto, de poesias, com algumas daquelas que tinha lido pela manhã, inclusive a que mostrou o amigo. Resolveu abri-lo aleatoriamente.

Ao abrir, leu em voz não tão alta: “O infinito se faz em um minuto de paz”. A partir dali, foi lendo a poesia e abstraiu do que estava em volta. Ao terminar de ler, levantou os olhos por um instante. Observou que uma senhora ao lado passava uma mensagem por telefone com esta frase, acrescendo um “eu amo você”. E o rapaz do outro lado escrevia a mesma sentença no seu celular, para postar nas redes sociais.

Mais uma vez esboçou um sorriso, agora o firmou. Recebeu um sorriso de resposta. E mais um. Quis abraçar aquela senhora e também ao rapaz, mas decidiu curtir seu momento, assim como deixar que eles curtissem os deles. Não houve tempo de ninguém reparar no pôr-do-sol – ele já tinha se despedido – mas, enquanto o trem voltava a andar, observou uma mãe contando as estrelas no céu para sua filha.

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Baseado em uma conversa com o camarada Christopher Augusto.

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