Beira da Estrada

O calor era inclemente e eles estavam ali, naquele posto de gasolina, finalizando uma operação. Na beira da estrada, com movimento frenético, o barro maltrata o couro e o verniz dos sapatos, os transformando em coisas sem brilho, como se fosse um chinelo ou bota qualquer. A poeira é democrática.

Enquanto finalizavam pendências, podiam observar pequenas coisas acontecendo no posto. Uma mulher, madura, estava com uma mala cheia de roupas, aguardando um caminhoneiro. Que não tinha rosto, não tinha nome, não tinha perfume nem um sorriso pelo qual ela pudesse sonhar. Ele não tinha nada exceto o destino final para onde ela queria ir.

Conversava com o frentista, explicando o quanto tinham sido espinhosos aqueles últimos meses, nos quais não tinha ganho nada, só perdido. Estava cansada da derrota. Queria ir embora, sem olhar pra trás. E iria. O frentista ainda argumentou, como se tentasse mostrar o copo meio cheio, mas, para aquela moça, o copo já tinha se espatifado faz tempo. E os cacos fizeram cortes profundos.

Quando mais um caminhão chegou, perguntou o destino. Era o lugar pretendido. Pediu carona; foi aceita, a porta aberta. Jogou a mala, que mais parecia uma trouxa, no banco, sem olhar pra trás. Subiu, se ajeitou, trocou algumas palavras inaudíveis. Antes de sair, o frentista, de forma carinhosa, falou.

– Que Deus te abençoe, moça. Juízo, boa viagem, que tudo dê certo. Cuidado na vida.
– Moço, nestes últimos tempos, Deus não olhou por mim. Talvez eu o encontre numa dessas curvas.

* * *

Enquanto fechavam os últimos detalhes, ele observou um estacionamento, com uns vinte ônibus, no fundo do estabelecimento. Eram veículos dos anos 70, mas impecáveis, com sua pintura metálica refletindo o sol furioso do meio-dia. Curioso, perguntou o que faziam:

– Esses ônibus fazem o que?
– Eles vão pra São Paulo e Brasília.
– Levando turistas?
– Imigrantes.
– Imigrantes? Saem cheios?
– Sim. Sempre cheios. Pra cada pessoa que vai visitar, umas oito que vão pra ficar.
– Não sabia que ainda existia este pêndulo. Não reparo este inchaço nas cidades.
– Porque tem muita gente que volta.
– Muita?
– Sempre voltam cheios.

Enquanto observavam os veículos, continuaram a conversa.

– Jamais imaginaria…
– Meu pai foi num desses.
– Foi?
– Sim. Foi, cheio de esperanças na mala, voltou com algumas amarguras.
– …
– Este é o ônibus que leva os sonhadores e traz os desiludidos.

Se entreolharam, em silêncio respeitoso. Naquele momento, não passava nenhum veículo pela estrada. Apenas a poeira se levantava, solene.

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