Analgésico

Ela não sabia mais o que fazer. Ele estava em pedaços, há anos. A solidão pra ele era anestéstica. Ela queria juntar os cacos, ele estava moído. Ela queria olhar o futuro, ele só queria recontar o passado. O que ela enxergava de luz, ele via escuridão. Mesmo assim, algo não os separava.

Magnetos de si mesmos. O que os repelia era a dor; o que os atraía, o amor. Compaixão, amizade, paixão. Mesmo querendo sangrar até o final, ele queria estar perto dela. O brilho no olhar da moça o mostrava que havia luz no fim do túnel, mesmo que ele, por ora, quisesse estar atropelado ali.

Ela se sentia só, porque cuidar não basta. É preciso ser mulher, além de mãe. É preciso ser desejo, além de companheirismo. Várias vezes se sentia em dúvida se não deveria seguir para frente, mas relutava, porque quando estendia a mão sentia o sangue ferver. E eles, mesmo falando em linguagens incompreensíveis, não queriam se perder de si mesmos. Porque se acabasse aquele romance, o amor morreria um pouco.

Os dois muitas vezes eram um só. Fragmentos de si mesmos, misturados. Tentando se conhecer e reconhecer. E lutando. Querendo que a parceria brote em vida, não que um siga o caminho e deixe o outro. Nas feridas abertas da alma, eles são o analgésico do outro. O infinito, pra eles, é a medida de um abraço. No afogamento da incerteza, a esperança é a bóia.

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