Máquina Zero

Ele fez o que fazia ao menos uma sexta-feira todo mês. Se dirigiu ao barbeiro para raspar a cabeça. Máquina zero, como sempre. Um ritual simples, mas que para ele tinha contornos curativos. Ver seus poucos cabelos sendo cortados significava se livrar do peso da maldade daquele mês, como um renascimento. Renovação.

O barbeiro ficava a alguns quilômetros de onde trabalha. O trajeto, na hora do almoço, era feito em poucos minutos, sem muita aporrinhação. Chegando lá, sempre um abraço apertado. Ele era o “careca”; o barbeiro, era simplesmente o “barbeiro”. Assim mesmo, sem nomes, sobrenomes, formalidades. Os adjetivos tinham uma carga de confiança e carinho embutidas naturalmente.

Naquele dia, ao chegar no portão humilde daquele bairro, onde uma placa se destacava com o preço do corte – “6 reais”, escrito assim mesmo – tocou a campainha uma, duas, três vezes. Nada do barbeiro aparecer. Bateu palmas. E mais nada. Esperou mais uns minutos e finalmente desistiu.

Ao virar as costas para ir embora, a porta se abriu. Era a esposa do barbeiro.

“Ele morreu ontem.”

Foi como se sentisse a perda de um membro da família. Um gancho no queixo. O olhar ficou turvo. Como assim, morreu? Olhou para a agora viúva, e os olhares de solidariedade, marejados, se encontraram. Em silêncio, se abraçaram.

Queria ter tido a oportunidade de ter escutado mais uma piada sem graça, um causo sobre o filhote de cachorro de três cabeças, a situação do Santa Cruz e do Flamengo e amenidades sobre política e religião. Escutar desabafos sobre a vida de aposentado e desabafar também, sobre a vida em geral. E ao fim daqueles vinte e muitos minutos, ver a tristeza desaparecer sob o fio da afiada navalha. Mas ali isso não aconteceria mais.

Voltou a dirigir, a esmo, por dentro daquele bairro simples que já tinha aprendido a conhecer. Achou outro barbeiro. Pediu pra passar a máquina. Zero. Enquanto os tufos de pelo caíam, prestava um tributo ao seu amigo sem nome, mas sempre presente. A renovação de alma que ocorre todo mês estava garantida, mas não foi a mesma coisa.

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