Nau

[Incidental: “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo” – Clube da Esquina]

“Se eu cantar, não chore não, é só poesia”

No mar escuro, toca Clube da Esquina na mente. A esmo, sem destino, buscando explicações sobre o que não precisa ser explicado. O murmúrio da canção em fá, cortando o silêncio companheiro. A solidão que tantas vezes ofende, agora é boa companheira. A luz do cigarro fazendo as vezes de farol, guiando por um caminho desconhecido e que, por isso mesmo, gera medo nos ignorantes.

“Como vai você?”

Essa é a pergunta que sempre se faz quando se sente saudade. A vida, essa dádiva e meretriz, que aproxima e afasta, girando sua ampulheta com pressa e, às vezes, covardia. Sem dar satisfação, tira e põe, abre seu baralho de tantas cartas comuns e saca os coringas da mesa, deixando o jogo um pouco mais sem graça. Pequenos grãos de areia, somos nós ao sabor do vento.

“Se eu morrer não chore não, é só a lua”

Abra as velas, porque o tempo é mais rápido. Viver de futuros de pretéritos é o carma. O que podia ser, o que não foi, o que foi mas não é mais. Escolhas ou a falta delas. O peso do mundo nas costas que causa tanto desconforto quanto a pena mais leve que cai com a força de chumbo. Os ciclos que não se compreendem e ocorrem como as marés, altas ou baixas, calmas ou destruidoras, mostrando apenas o quanto somos frágeis perante o que importa. E leigos, por muitas vezes não saber o que importa.

“Você vem?”

Diante das muitas dúvidas e poucas certezas, respira. Quando se acostuma com a escuridão, é possível ver a luz das estrelas, o suficiente para erguer a cabeça e seguir em frente. Fura as ondas, enfrenta a tempestade, busca o porto e, com sensibilidade, não se engana pela luz artificial do cotidiano, que teima em se impor e desviar a atenção do que é relevante.

“Será que é tarde demais?”

É. E nunca é. Sempre haverá tempo, uma próxima vez, em uma estrada dessas que ainda não se conhece, com guia nas mãos ou não, na esperança de ver o nascer do sol e um campo de girassóis, que pode ter a cor do seu cabelo, ou não, com o céu multicolorido das cores dos olhos de gente querida. É preciso não ter medo, e é muito mais fácil falar do que cumprir. Andar incessantemente e navegar, muitas vezes sem bússola, até que as cicatrizes se fechem e virem saudade, para que se chegue ao cais, onde cada um atraca sua nau e todos se encontram, com um brinde e um sorriso. Velas ao mar.

“Ainda gosto de dançar. Bom dia.”

Que seja suave.

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