Estilhaços

Nunca soube lidar com perdas. A verdade é que uma vida inteira de grandes derrotas sempre se sobressai às vitórias. E elas, as vitórias, também não foram poucas. No balanço, ativo e passivo se equilibram. Não há do que se queixar, nem se lamentar. Ao menos até o momento. Entretanto, há momentos em que as coisas fogem ao controle. Granada de si mesmo, lançada no universo.

É muito difícil ser algoz. Dos outros, de si. Não se trata de algo simples, um clic, um mecanismo que simplesmente se aciona. Envolve dores, lembranças, sabores e dissabores. Envolve sentimento. Que segue o curso independente das vontades, que são reféns dele. Sofrimento não é amargura, tristeza não é pecado. Mas dói. Como dói.

Seria muito melhor se fosse fácil. Sem mágoas. Apenas boas lembranças. Mas não é assim que funciona. Há todo um tortuoso caminho a ser percorrido, e as distâncias parecem cada vez maiores. O amargo sabor do fracasso, o olhar de quem não entende nada e de quem entende. O passado colorido que lateja cada vez que se olha o presente chuvoso.

Machucar a quem se preza, quem se ama, é muito dolorido. Ferir a si mesmo também é muito desgastante. Homicídios e suicídios que caminham de mãos dadas, se apegando a tentativas e maneiras mais ou menos ardidas. Sem maquiagens e sem máscaras, apenas os olhares nostálgicos e respeitosos que se cruzam, marejados, buscando um porquê, um onde, um senão…

Ali, onde a coragem se confunde com a covardia, o amor com a mágoa, o não com o sim, o talvez. Ali, onde os sonhos parecem estar se aconchegando num sono sem fim, porque dormem no travesseiro do futuro mutante. Ali, onde os caminhos divergem, e não por falta de tentativas, mas porque os compassos são diferentes, numa dança sem coreografia onde os calos da alma são pisados. A granada de si mesmo, lançada no universo, explode e implode, e os estilhaços fazem vítimas inocentes em sua culpa e culpados em sua inocência.

Quem sabe lidar com a perda? Quem sabe lidar com a derrota? Quem sabe lidar com o fracasso? Quem sabe ser algoz? Sobram os estilhaços.

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