Infantaria e Mar

Filho, hoje você conheceu a praia. Parece algo comum e corriqueiro, mas pra nós não é assim. As pessoas talvez nos olhem estranho, porque pra elas praia é diversão. Elas se sentem bem na praia, elas gostam de estar ali, naquele ambiente, respirando aquele ar da maresia, por recreação. Nós, não. Ali, pra nós, é sempre um ritual.

Hoje, você é muito novo pra entender isso, guri, mas um dia, você, quando estiver saturado, carregado e cansado do cotidiano, irá à praia. Porque é da sua natureza, assim como da minha. Nosso sangue é de água salgada, ali é nosso habitat natural. Não é aquela balela de ser peixe, ou algo do tipo, é algo que transcende isso. É espiritual.

Ao ver você dar passos, amparados, para ir ao encontro do mar, eu reparei no seu rosto. Normalmente bebês choram, mas você não fez isso. Primeiro reconheceu o piso fofo da areia, depois, calmamente, foi se encaminhando pro mar. Quando tocou na água, resmungou – acredite, isso é uma característica genética, bem mais minha do que da sua mãe, não se assuste – mas logo se adaptou.

A água do Nordeste é morna, mas não pense que a vida será sempre mansa assim. Há lugares que a água será geladíssima. É uma metáfora pra vida, filhote: mesmo que a água pareça desafiadora, não se furte a mergulhar.

Aliás, falando em água, e falando em mar, nunca se esqueça: gente como a gente nunca sai de costas pro mar. A gente sai e olha pra ele, em reverência. E agradece. Porque o mar é acolhedor, mas não tolera desaforo. Só morre no mar quem sabe nadar. A arrogância no oceano é imperdoável. Na vida, se demora mais pra cobrar a conta, mas ali, na imensidão azul, ela vem rápido com direito a gorjeta. Convém nunca abusar.

E você saberá disso, no devido tempo. Como hoje, depois de ter receio, soube onde estava pisando, depois reconheceu onde estava nadando e abriu um sorriso abusado. Se divertiu nos braços dos seus, tomou uma água de coco e voltou pra casa feliz.

Porque gente como nós, meu filho, não trata a praia como diversão ou como um ambiente diferente. Gente como nós é a praia e faz parte dela, assim como ela mora na gente. Porque nós, guri, somos feitos de infantaria e mar.

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