Suco de Tangerina

Ele sempre teve a contradição como seu ombro amigo. A segurança de saber o que era andava de mãos dadas com a insegurança de não saber o que esperar – de si, de outrem, do mundo. Muitas vezes usava uma máscara de arrogância para se proteger daquilo que não conhecia ou temia conhecer, mesmo que fosse do espelho.

Sempre traçava seus planos e seus sonhos como se fosse uma obra de vida. Detestava os imprevistos, embora adorasse os improvisos. O romance com a idiossincrasia era um dos amores mais duradouros que tinha, e tinha se conformado com essa rotina de mudar opiniões mesmo se aferrando a princípios.

Perdido e absorto em seus próprios pensamentos, muitas vezes demorava a tomar decisões. Não só por receio, mas por tentar compreender o que cada uma delas significava em toda a sua essência. Nos contratos e distratos feitos com a vida, gostava de ler as letras miúdas.

Entretanto, há uma hora que os caminhos se tornam inevitáveis e que é preciso tomar atitudes. A contradição deixa de ser poltrona e vira espada, perigo iminente, como na parábola de Dâmocles. Nesses momentos, não há como não fazer. Apenas assumir as negligências e responsabilidades. As opiniões e princípios estão lá, mas asfixiam mais do que fazem respirar.

A cada passo, uma nova sensação. Dor, tristeza, serenidade, esperança, paz. Sem perder a alteridade, palavra da moda, espírito necessário. É preciso entender e compreender o que se passa, e deixar de se irmanar com a contradição. Para poder andar em frente, é preciso olhar para trás e, principalmente, ao redor. É preciso se despir da roupa antiga e sentir o vento da esperança.

E deixar de se importar com as coisas dramaticamente grandes e importantes da vida e do mundo. Esquecer um pouco dos anseios e ardores da alma, deixar as feridas respirarem, buscando a cura por si só, mesmo que as cicatrizes deixem quelóides. Desarmar o espírito e relembrar que mais relevante que saber bater, é aprender a apanhar.

Sem sonhos, nem pesadelos, reaprender a caminhar, relembrar as coisas simples, saber que tudo pode e vai se assentar. E que a contradição gerada pela ânsia de entender o mundo perde seu lugar pra simplicidade. Que, às vezes, opinião, princípio, compreensão devem ser colocadas em repouso. Apenas sentir, buscar a calmaria. Em vez de se embriagar de dúvidas e necessidades, algo prosaico, como suco de tangerina. Assim, simples. Intransitivo. Um brinde.

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