Carrinho

Houve algum momento em sua tenra idade que ele passou a não gostar de carrinhos. Nas lembranças esmaecidas da memória, às vezes vinham flashes de uma estante cheia deles, em modelos de ferro, todos organizados, que depois desmoronava. Não eram pensamentos nostálgicos, eram pesadelos que o atropelavam e o faziam marejar os olhos.

Como tudo que é ruim e não merece ser enfrentado, essa antipatia foi empurrada para debaixo do tapete da alma. Ali, não incomodava a si mesmo. Sem ter de encarar esta dor, vivia bem. Até que teve um filho. Guri, piá, moleque, garoto, maroto, travesso. Conforme chegava a hora de nascer, os presentes se amontoavam, nenhum carrinho.

Até que um grande amigo deu um carro enorme de presente. Uma Ferrari daquelas. Agradeceu imensamente. Guardou com carinho. Era do filho. Se fosse uma bola, já estaria fazendo embaixadinhas, emulando som de torcidas, realizando o voleio de Bebeto e saindo pra comemorar com embala-nenem. Mas o carrinho? Não o tocava, porque evocava aquela estante e logo em seguida, na mente desmoronava.

Seu filho foi crescendo, começou a engatinhar e depois a fincar os pés no chão. Toda vez que o pimpolho olhava um carrinho, brilhava os olhos. Ele percebeu isso. Não há medo que mereça eterna fuga, hora de resolver este problema e tirar a sujeira debaixo do tapete.

Em um sinal vermelho, parou o vendedor. Perguntou quanto era aquele carrinho. “Cinco reais”. Tirou o dinheiro do bolso. “Fica com o troco”. Chegou em casa com o moleque, o colocou no chão e enquanto ele ainda se ajeitava para dar seus pequenos grandes passos, soltou o carrinho também. Ganhou um sorriso em retribuição. E uma língua sapeca no rosto.

E o menino pegou o carrinho e meio desajeitado o mandou de volta para o outro menino, que fez movimento similar. Ali, na linguagem universal da alegria, um acertava contas com o passado, o outro apenas vivia seu presente. Agora, no quarto do guri, há vários carrinhos. E muitas vezes, o menino maior vai lá brincar com eles.

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