Cenas de um Supermercado na Madrugada

Onze e meia da noite. O silêncio é entrecortado por uma música que pretensamente deveria ser lounge mas na verdade varia entre um som muito ruim ou muito bom, com toques de Phil Collins pelo meio. Afinal, Phil Collins é incontestável. Uma noite a mais, outro dia no paraíso. Mentira, é só o supermercado no início da madrugada.

Todos ali são cúmplices. Porque buscam a calmaria e colocam todo o cansaço e frustração de um dia de trabalho no liquidificador daquela terapia que é fazer compras na madrugada. Todos se entreolham complacentes, pois cada um com seu motivo, se sentem protegidos da vida trituradora ali. O esporro que precedeu o silêncio.

Tem aquele que compra as coisas da casa com sua calculadora inseparável, companheira também daquela moça que trabalha checando e comparando preços, como se fosse uma fiscal do Sarney em versão pós-punk. Tem aquela que saiu da ginástica e foi direto pro setor de laticínios e posteriormente vai disputar lugar na fila com a executiva que foi comprar um travesseiro da Nasa, pra ver se cura sua insônia, causada pelo stress e pelas injustiças dos dias das horas justas.

A mãe que aproveita os corredores vazios para ninar seu bebê recém-nascido divide seu espaço com dois faxineiros que lavam o setor de carnes e aproveitam para deslizar pelo piso, emulando o Holiday on Ice e abrindo um sorriso gostoso e sincero. Os casais proibidos, com ou sem aspas, escolhem este horário para andar de mãos dadas sem medo de preconceito ou de serem descobertos. O sorriso sincero de quem ama, seja como for, já diria a elegância de Paulinho.

A indignação do protesto mudo contra o preço do limão, do damasco e do mel, contrastando com a comemoração em aviãozinho daquele que vai comprar a maminha numa promoção daquelas. Ali, naquele microcosmo gelado, oásis no meio da madrugada sem estrelas, um grupo seleto tão díspar quanto cheio de afinidades se encontra.

E como toda regra tem sua exceção, há os insatisfeitos: os caixas, querendo ir para casa, servindo bem para servir sempre, ou melhor, nem sempre, porque é preciso uma folga e madrugada – onde já se viu? – não é lugar para trabalho, ao menos aquele dia, porque eles queriam estar ali, invertidos com aqueles que buscam a terapia das compras, cujo preço é caro, mas pode ser pago à vista, no débito ou crédito.

Duas da manhã. Na fila, aquele momento de redenção, libertação e prisão. Redenção porque a missão finalmente foi cumprida; libertação porque enfim as coisas voltam a seu rumo normal e cotidiano; e, justamente por isso, é uma volta à prisão aberta da vida real. Naqueles minutos que viram horas, a terapia do dia a dia deixa o ser humano mais leve. Talvez a leveza seja uma metáfora para o dinheiro que sai do bolso também. São as cenas de uma madrugada no supermercado. Boa noite. E boa sorte na volta pra casa.

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