Gatilho

Não se sabe muito bem como ocorre, mas ocorre. Sem mais nem menos, uma frase perdida no meio de pensamentos, dita com a melhor das intenções – ou não – dispara o gatilho. Na roleta russa emocional, é apenas uma questão de sorte incontrolável saber se há uma bala ali. Clec.

E quando ele é disparado, os pensamentos que estão ali presos, domados e represados se soltam, insolentes, passeando pela alma como se fossem donos e senhores da razão. Dominam todos os movimentos e as reações se tornam imprevisíveis. Uns se flagelam e machucam os seus; outros se calam e sofrem sós; alguns tentam buscar ajuda, mas não conseguem se expressar, e quem consegue se expressar normalmente encontra um muro com uma piada na hora errada em vez de um singelo e simples abraço. Clec.

O pior de tudo é saber que não há culpados nisso. Normalmente é bala perdida que atinge os medos de forma frontal e desperta aquele demônio mais escondido. O kraken que envolve e entristece como se fosse um tentáculo de melancolia sufocando a alma. Clec.

Tudo que se quer é um cafuné, um abraço, um colo, mas isso nunca é encontrado, porque normalmente um gatilho é tratado como besteira, bobagem, mimimi. É assim que funciona a vida cruel, porque o outro normalmente nunca reconhece uma dor, por não saber como o calo alheio aperta. Cada um só sabe de si. É natural que seja assim. Clec.

Assim como é natural que se julguem os sentimentos esparsos com uma ótica mais dura e viril do que seria o próprio autojulgamento. Poucos têm coragem, disponibilidade, indulgência e lealdade de estar ao lado quando se precisa. Há lutas que se lutam sós, mas nem todas são assim. Há aquelas nas quais se precisa de ajuda, e muitas vezes a sensibilidade para oferecê-la quando alguém não consegue pedi-la é tão importante quanto saber não oferecê-la quando não se precisa. Clec.

A verdade é que, quando um gatilho é disparado, não há muito o que ser feito. É uma pequena morte. Sujeita à ressurreições, solidões ou libertações. Quando se está no olho do furacão, tudo que se quer é calmaria. Toda tempestade cansa, às vezes é preciso apenas o nascer do sol. Bum.

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