Trânsito

O trânsito é a maior prova de paciência do mundo. É por isso que eu tenho sérias dúvidas sobre a capacidade serena do Dalai Lama. Porque ser sereno no meio do nada lá na Índia é uma coisa, mesmo com os chineses enchendo o saco. Quero ver ser sereno montado num iaque e engarrafado na cordilheira do Himalaia.

Voltemos ao problema da mobilidade urbana. Sim, o trânsito. Esse mal cotidiano que, na verdade, é a grande antítese social. Se compra um carro ou moto para ir mais rápido para algum lugar. Mas, como pediriam Jane e Herondy, não se vai. Não se vai a canto nenhum. Se fica ali, mais engarrafado do que azeite ruim, esperando a morte chegar ou o tráfego fluir, o que vier primeiro.

E isso só não basta, é possível piorar. Há de se lidar com os arquétipos do trânsito. Tem aquele motoqueiro que corta todo mundo sem ligar seta, se achando o Randy Mamola urbano até sofrer um acidente grave e aparecer sem perna em uma campanha do governo, qualquer governo, com aquela cara de quenga nova em puteiro.

Há o típico barbeiro gospel, aquele cara que não sabe dirigir, que corta os outros, que retarda a esquerda, que não liga a seta e ostenta aquele adesivo gigante com cunho religioso: “Foi Deus quem me deu”, “Dirigido por mim, guiado por Deus”, “Sou irmão de Jesus, será que sou fraco?” e demais congêneres, o que dá uma vontade gigantesca de exercer o ateísmo e, por outro lado, faz pensar que Deus é um péssimo motorista, dono de frota e instrutor.

Se o Todo Poderoso exercesse o lado Deustran, estilo Antigo Testamento, já teria desintegrado metade dos condutores, jogado uma chuva de gafanhotos em mais alguns e teríamos um tráfego mais calmo e sem congestionamentos – e constrangimentos.

Não podemos esquecer do motorista malandrão, que é Ayrton Senna na hora de avançar o sinal vermelho, Nelson Piquet na hora de xingar o coleguinha no trânsito, Penélope Charmosa na hora discutir cara a cara, Rubens Barrichello na hora de pagar as multas e Dick Vigarista quando tenta subornar o guarda. Sim, claro, a vida como ela é. Tem suborno e marmelada, sim senhor.

Temos também aquele condutor cujo carro tem o adesivo da família feliz e ele, além de três filhos e dois cachorros, tem síndrome de Tourette e sai xingando todo mundo, até um carro ofendido emparelhar com ele e o mesmo subir o vidro e colocar Haddaway bem alto pra tocar. Baby, don´t hurt me. No more.

Este é apenas o reflexo de um mundo onde catamos migalhas e comemoramos como Galvão Bueno quando a gasolina abaixa dez centavos, porque está muito cara – e está mesmo. Desviando de buracos em estradas municipais, estaduais e federais, como se fosse um carrinho de Moon Patrol, ou pagando aquele pedágio maroto e travesso quando a estrada é lisinha [mas sinceramente prefiro pagar o pedágio do que trocar os pneus e rodas detonados pelos buracos].

Esperando o trânsito andar, naquele congestionamento sensual, depois de pensar em inúmeras maneiras de matar o coleguinha que fechou seu carro, é necessário se dar conta que ser serial killer não seria suficiente, apenas o genocídio resolveria. E aí, em vez de continuar com estes pensamentos teratológicos, se liga o rádio para escutar uma música que transforma o motorista outrora raivoso em cantor de engarrafamento.

Agora, depois de relaxar e berrar aquele refrão que veio do âmago do ser, o trânsito parece fluir. Façamos como Raimundo Fagner, deixemos de coisa e cuidemos da vida. O desabafo dessas mal traçadas linhas parece surtir efeito e tudo volta ao seu norm… olha aquele filho da puta cortando sem ligar a seta, cara. Ele não merece uma morte dolorosa?

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