O Sustentável Peso de Ser

A vida não é fácil. Entretanto, na maioria das vezes, ela é inocente. Em grande parte dos casos a dificuldade parte de fora pra dentro, descontados os casos fortuitos e de força maior. Normalmente as decisões, escolhas e caminhos são guiadas justamente por aquele que sofrerá as consequências e colherá os ônus e bonus do processo.

“Ônus e bonus”. Heranças da malfadada linguagem corporativa, que migraram e se aboletaram como pardais nas gôndolas de auto-ajuda, como inexoráveis clichês. A expressão tem o poder de sintetizar um monte de sensações e suas nuances, as prensando para consumo rápido e sem argumentação. Talvez seja melhor assim. Talvez.

No jogo de cartas marcadas entre o ser humano e sua personalidade, cujo espelho invisível da autocrítica é o tabuleiro, muitas vezes é necessário se reinventar, ser coringa e canastra suja de si mesmo. A vida não é pôquer, tudo ou nada; tampouco é sueca, onde se pode embarcar na melhor opção e lançar trunfos de vez em quando. A vida blefa, grita, silencia, combina, trapaceia. Truco.

Se tem esperança de que? De um caminho leve, sem percalços, com a brisa inocente perfumada com flores do campo e a voz jovial do locutor anunciando um comercial de desodorante ou de margarina. O caminho normalmente não é assim. Não é uma estrada sem destino e sem nome, na qual se acelera e se ouve Lynyrd Skynyrd no rádio. Normalmente há buracos, atribulações e acidentes, alguns letais, nos quais romances, lembranças e expectativas jazem mortas no chão.

Se tem esperança de? De superar, de ganhar destreza dirigindo o próprio veículo que é o destino. Porém, ser motorista de si mesmo necessita de revisão, habilidade, cuidado e, mesmo assim, há a possibilidade ser surpreendido pelas mudanças climáticas das relações interpessoais ou com seu próprio ego. Não existe pista mais desafiadora do que nossa própria idiossincrasia. Eau Rouge. Se tem esperança?

Há momentos em que sentar no chão e olhar para o teto, mirando o nada, é a melhor solução. Outras vezes, a sensação de sufocamento é tamanha que a impressão é de queda livre, sem saber onde é o chão de nossa própria angústia. A verdade é que ser parece insustentável, mas não é. E se o filósofo grego diferenciava a leveza e o peso, este sendo ausência daquela, se enganou redondamente.

Leveza e peso andam de mãos dadas, como namorados existenciais. Muitas vezes, por convenção ou auto-imposição, há a necessidade e/ou vontade de ser leve, flutuar, andar em paz. No fim das contas, por maturidade ou por não haver opção, se convive com a dor, com os espinhos, como se eles tatuassem a alma para que finalmente se pudesse desnudar a leveza. Não existe o caminho da verdade; apenas caminhos, de verdade.

A leveza do ser talvez seja insustentável, mas o peso de ser é perfeitamente sustentável. É preciso conhecer, se
reconhecer, seguir em frente. O espetáculo do próprio sofrimento precisa apenas de uma pessoa na platéia: de si mesmo. Para que a mariposa do peso se torne a borboleta da leveza. Para que se siga em frente. Respira.

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