Goleiros

Embora todo mundo queira fazer gols como atacantes, distribuir o jogo como meio-campistas e, nos momentos mais libertadores, dar um bico para o alto, como um zagueiro-zagueiro, a verdade inexorável é que todos somos goleiros. Sim, todos somos solitários como o guarda-redes.

Na pequena área de nossa própria consciência, onde a grama não nasce, estamos isolados, vendo o jogo se desenrolar. Naqueles minutos onde se joga a partida do destino, muitas vezes somos acionados. E fazemos defesas espetaculares, salvamos bolas impossíveis, somos lembrados como craques, reverenciados como estrelas, até que falhamos.

Falhamos miseravelmente. Aquela bola entre as pernas, o montinho artilheiro, o golpe de vista mal dado, que nos fazem sentir vergonha de nós mesmos. Já não bastavam aqueles chutes onde a coruja dorme, indefensáveis, que temos de engolir e aceitar. Os piores momentos são aqueles defensáveis. E aí toda aquela mística cai por terra.

Naqueles momentos onde a solidão se acentua e nós estamos ali, estirados, olhando para a rede. Levantamos e todo o time balança a cabeça negativamente. Quer dizer, todos, não. Ainda há os mais desesperados, que colocam a mão na cabeça. E uns poucos dão aquele tapa nas costas, dizem “levanta!”. E nós, goleiros de nosso próprio jogo, levantamos. Não há outro jeito

A verdade é que poucos nesta vida serão chamados de mito, com aquela moral toda e os defeitos sendo travestidos de perfeccionismo. Outros tantos terão um apelido pomposo juntando substantivo e adjetivo, como “tanque malaio”, “danúbio  azul”, “aranha negra” ou algo do tipo. Surgirão aqueles que terão seu nome gritado com um apelido não-pejorativo, como “puta que pariu”. Ainda haverá uns escolhidos entre nós que terão nome de santo – e querem o nome mais bonito. Talvez seja preciso amar os goleiros como se não houvesse amanhã.

Há aqueles que pegam todas as bolas impossíveis, mas deixam passar as possíveis. Clemência. Alguns não aguentam encarar o problema, qualquer que seja ele e preferem se atirar nos trilhos de trem da vida; outros preferem matar e enterrar o que julgam ser dificuldade, para depois enfrentar as graves conseqüências. Cada um com sua escolha, sua trilha, seu caminho, seu vaticínio.

Quando o cronômetro começa a correr, a verdade é que é preciso evitar todos os gols possíveis, assimilar os impossíveis e saber se perdoar quando falhar. A falha, assim como a morte, é inevitável. Então, embora seja necessário lamentar, não se pode transformar o lamúrio em canção de uma nota só. È preciso seguir até o apito final, porque de onde surge o vacilo também brota a redenção. O jogo é jogado. E todos somos goleiros em nossa vida.

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