Correnteza

Nada.

Ele nada naquele mar que muda de cor conforme o reflexo do céu e o fundo de areia. Do mais límpido azul ao chumbo mais turvo. A sabedoria ensina que não se deve enfrentar as ondas. Os arrogantes têm a sentença decretada pela imensidão líquida e ela não costuma dar segundas chances.

Respira.

Prudência é mais do que necessário quando se está nas águas. Em tempos de marola ou em ondas tormentosas, é preciso nadar. “Continue a nadar”. A frase é simples e prosaica, mas faz bastante sentido, principalmente no momento e movimento das marés. Cheias ou baixas, ao capricho da lua, indicam os caminhos ou a falta deles.

Cansa.

Muitas vezes o mar puxa para um caminho completamente diferente. Não se deve enfrentar as ondas, a lição é navegar com elas – ou apesar delas. O confronto só desgasta e desperdiça energia. Paciência é necessária para sair das ressacas, mesmo quando parecem intransponíveis.

Bóia

Quando os braços extenuam e nada mais parece funcionar, é necessário boiar. Recobrar um mínimo de forças para não perder o prumo. O corpo é barco, vela e vento, é o que se tem e o que se pode contar. A correnteza é um inimigo tão poderoso quanto pode ser aliado. É preciso decifrar suas entrelinhas.

Mergulha

Mergulha e volta, aproveita a corrente, pega o jacaré. De peito aberto, sem se afogar. A distância da terra firme é uma variável que depende muito do fôlego e da vontade de sair do mar. Respira, cansa, bóia e mergulha.

E nada.

Por tudo. E por nada.

Goleiros

Embora todo mundo queira fazer gols como atacantes, distribuir o jogo como meio-campistas e, nos momentos mais libertadores, dar um bico para o alto, como um zagueiro-zagueiro, a verdade inexorável é que todos somos goleiros. Sim, todos somos solitários como o guarda-redes.

Na pequena área de nossa própria consciência, onde a grama não nasce, estamos isolados, vendo o jogo se desenrolar. Naqueles minutos onde se joga a partida do destino, muitas vezes somos acionados. E fazemos defesas espetaculares, salvamos bolas impossíveis, somos lembrados como craques, reverenciados como estrelas, até que falhamos.

Falhamos miseravelmente. Aquela bola entre as pernas, o montinho artilheiro, o golpe de vista mal dado, que nos fazem sentir vergonha de nós mesmos. Já não bastavam aqueles chutes onde a coruja dorme, indefensáveis, que temos de engolir e aceitar. Os piores momentos são aqueles defensáveis. E aí toda aquela mística cai por terra.

Naqueles momentos onde a solidão se acentua e nós estamos ali, estirados, olhando para a rede. Levantamos e todo o time balança a cabeça negativamente. Quer dizer, todos, não. Ainda há os mais desesperados, que colocam a mão na cabeça. E uns poucos dão aquele tapa nas costas, dizem “levanta!”. E nós, goleiros de nosso próprio jogo, levantamos. Não há outro jeito

A verdade é que poucos nesta vida serão chamados de mito, com aquela moral toda e os defeitos sendo travestidos de perfeccionismo. Outros tantos terão um apelido pomposo juntando substantivo e adjetivo, como “tanque malaio”, “danúbio  azul”, “aranha negra” ou algo do tipo. Surgirão aqueles que terão seu nome gritado com um apelido não-pejorativo, como “puta que pariu”. Ainda haverá uns escolhidos entre nós que terão nome de santo – e querem o nome mais bonito. Talvez seja preciso amar os goleiros como se não houvesse amanhã.

Há aqueles que pegam todas as bolas impossíveis, mas deixam passar as possíveis. Clemência. Alguns não aguentam encarar o problema, qualquer que seja ele e preferem se atirar nos trilhos de trem da vida; outros preferem matar e enterrar o que julgam ser dificuldade, para depois enfrentar as graves conseqüências. Cada um com sua escolha, sua trilha, seu caminho, seu vaticínio.

Quando o cronômetro começa a correr, a verdade é que é preciso evitar todos os gols possíveis, assimilar os impossíveis e saber se perdoar quando falhar. A falha, assim como a morte, é inevitável. Então, embora seja necessário lamentar, não se pode transformar o lamúrio em canção de uma nota só. È preciso seguir até o apito final, porque de onde surge o vacilo também brota a redenção. O jogo é jogado. E todos somos goleiros em nossa vida.

O Povoado

Aquele barulho diferente e um sacolejo mais insinuante que a nova passista globeleza. O pneu furou. O pneu, no caso, era de uma caminhonete. Furou, no caso, na margem da BR-116, a poucas horas do pôr-do-sol. Ao olhar para o lado esquerdo, apenas o horizonte. Ao olhar para o lado direito, um povoado simples.

Simples, mas prestativo. Encostando o veículo à procura de um borracheiro. Para um sujeito, cara de camponês, gente da pele curtida pelo sol. Eloquente, se dispõe a ajudar e chama o borracheiro, “o melhor da região”, ele diz. E o profissional chega lá e analisa o que houve. E era um furo grande, e precisava vulcanizar, e demoraria uma hora, talvez duas. Preço combinado, tudo certo. Um vai, outro fica ao lado do veículo.

Carro fechado, naquele pequeno povoado, hora de observar ao redor. Uma parada de ônibus com um pequeno logotipo onde se lia “Beberibe, eu te amo”, para proteger do sol os que precisam se locomover. Ao fim da tarde, ali, isolado, aparentemente não há muito o que fazer. Sinal de telefone, inclusive, não há.

Sem internet ou dados, a sensação é de solidão? Ledo engano. O camponês que buscou o borracheiro se apresenta, conta da formação técnica em mecânica, e que gosta de se embrenhar naquele local que mistura caatinga com litoral com pouquíssimos quilômetros de distância.

Logo chega mais um habitante, que conta que nos tempos dos avós tinha muita onça parda por ali. Sim, suçuaranas. E que hoje sumiram, mas ainda tem um tipo de cervo, algumas jararacas, as cascavéis já estão quase extintas.

E ali, atrás do povoado, tem um açude, onde implantaram tilápias e tucunarés, que se adaptaram bem, mas brigam muito, porque tucunarés são territorialistas e matam as tilápias. E ainda dificultam a pescaria, porque são inteligentes ao extremo.

Há uma igreja no meio da praça. Talvez seja uma capela. A falta de catolicismo impede saber a diferença entre uma e outra, mas é uma construção linda, parece uma casa de bonecas, com um santo em sua entrada. E um espaço para os guris, aproveitando que o sol está terminando o expediente, começarem a armar o futebol.

E um deles, o mais loquaz, olha e diz: “moço, vamos jogar bola?”, tirando um sorriso daqueles do fundo da alma e dando uma vontade quase incontrolável de dobrar as calças, tirar o sapato social e assumir uma das posições daquela pelada.

Ao mesmo tempo, jovens se reúnem na frente do povoado, mas não é nenhum motivo religioso ou festa na cidade. Estão esperando o ônibus para estudar. E não, não é colégio ou supletivo. É faculdade, na cidade ali perto. Alguns fazem direito, outros pedagogia e ali falam dos sonhos e contam que criaram um grupo de whats app. Mas como, se não há sinal telefônico? Rádio, wi-fi, modernidades.

E oferecem a senha da rede para ver os emails e passar recados. Mas não, não é preciso. Estar desconectado naquela hora é excelente. Esquecer o mundo para lembrar de si. E informam que naquela casinha azul vende sorvete artesanal. E o preço é baratinho. E tem de nata goiaba, uma combinação tão deliciosa e improvável quanto caatinga e litoral, com nacos de goiabada em meio à nata. Sabor que fica na memória.

O por do sol se aproxima pelas margens da BR-116, preguiçosamente, mesclando-se com a luz dos faróis dos veículos que rasgam aquela estrada. O tempo passa rápido e já vem o borracheiro com o pneu consertado – “muito trabalho, teve que vulcanizar” .

Enquanto ele coloca o pneu de volta, as despedidas, como se fossem velhos conhecidos. Promessas de um dia passar por lá de novo e comer um tucunaré no restaurante da moça, que por sinal é irmã do borracheiro, que namora com o cara que falou das suçuaranas, e ali todo mundo se conhece.

E naquele momento, conhecer aos outros é reconhecer a si mesmo. Agora entendo a mensagem da parada de ônibus.

Trânsito

O trânsito é a maior prova de paciência do mundo. É por isso que eu tenho sérias dúvidas sobre a capacidade serena do Dalai Lama. Porque ser sereno no meio do nada lá na Índia é uma coisa, mesmo com os chineses enchendo o saco. Quero ver ser sereno montado num iaque e engarrafado na cordilheira do Himalaia.

Voltemos ao problema da mobilidade urbana. Sim, o trânsito. Esse mal cotidiano que, na verdade, é a grande antítese social. Se compra um carro ou moto para ir mais rápido para algum lugar. Mas, como pediriam Jane e Herondy, não se vai. Não se vai a canto nenhum. Se fica ali, mais engarrafado do que azeite ruim, esperando a morte chegar ou o tráfego fluir, o que vier primeiro.

E isso só não basta, é possível piorar. Há de se lidar com os arquétipos do trânsito. Tem aquele motoqueiro que corta todo mundo sem ligar seta, se achando o Randy Mamola urbano até sofrer um acidente grave e aparecer sem perna em uma campanha do governo, qualquer governo, com aquela cara de quenga nova em puteiro.

Há o típico barbeiro gospel, aquele cara que não sabe dirigir, que corta os outros, que retarda a esquerda, que não liga a seta e ostenta aquele adesivo gigante com cunho religioso: “Foi Deus quem me deu”, “Dirigido por mim, guiado por Deus”, “Sou irmão de Jesus, será que sou fraco?” e demais congêneres, o que dá uma vontade gigantesca de exercer o ateísmo e, por outro lado, faz pensar que Deus é um péssimo motorista, dono de frota e instrutor.

Se o Todo Poderoso exercesse o lado Deustran, estilo Antigo Testamento, já teria desintegrado metade dos condutores, jogado uma chuva de gafanhotos em mais alguns e teríamos um tráfego mais calmo e sem congestionamentos – e constrangimentos.

Não podemos esquecer do motorista malandrão, que é Ayrton Senna na hora de avançar o sinal vermelho, Nelson Piquet na hora de xingar o coleguinha no trânsito, Penélope Charmosa na hora discutir cara a cara, Rubens Barrichello na hora de pagar as multas e Dick Vigarista quando tenta subornar o guarda. Sim, claro, a vida como ela é. Tem suborno e marmelada, sim senhor.

Temos também aquele condutor cujo carro tem o adesivo da família feliz e ele, além de três filhos e dois cachorros, tem síndrome de Tourette e sai xingando todo mundo, até um carro ofendido emparelhar com ele e o mesmo subir o vidro e colocar Haddaway bem alto pra tocar. Baby, don´t hurt me. No more.

Este é apenas o reflexo de um mundo onde catamos migalhas e comemoramos como Galvão Bueno quando a gasolina abaixa dez centavos, porque está muito cara – e está mesmo. Desviando de buracos em estradas municipais, estaduais e federais, como se fosse um carrinho de Moon Patrol, ou pagando aquele pedágio maroto e travesso quando a estrada é lisinha [mas sinceramente prefiro pagar o pedágio do que trocar os pneus e rodas detonados pelos buracos].

Esperando o trânsito andar, naquele congestionamento sensual, depois de pensar em inúmeras maneiras de matar o coleguinha que fechou seu carro, é necessário se dar conta que ser serial killer não seria suficiente, apenas o genocídio resolveria. E aí, em vez de continuar com estes pensamentos teratológicos, se liga o rádio para escutar uma música que transforma o motorista outrora raivoso em cantor de engarrafamento.

Agora, depois de relaxar e berrar aquele refrão que veio do âmago do ser, o trânsito parece fluir. Façamos como Raimundo Fagner, deixemos de coisa e cuidemos da vida. O desabafo dessas mal traçadas linhas parece surtir efeito e tudo volta ao seu norm… olha aquele filho da puta cortando sem ligar a seta, cara. Ele não merece uma morte dolorosa?

Gatilho

Não se sabe muito bem como ocorre, mas ocorre. Sem mais nem menos, uma frase perdida no meio de pensamentos, dita com a melhor das intenções – ou não – dispara o gatilho. Na roleta russa emocional, é apenas uma questão de sorte incontrolável saber se há uma bala ali. Clec.

E quando ele é disparado, os pensamentos que estão ali presos, domados e represados se soltam, insolentes, passeando pela alma como se fossem donos e senhores da razão. Dominam todos os movimentos e as reações se tornam imprevisíveis. Uns se flagelam e machucam os seus; outros se calam e sofrem sós; alguns tentam buscar ajuda, mas não conseguem se expressar, e quem consegue se expressar normalmente encontra um muro com uma piada na hora errada em vez de um singelo e simples abraço. Clec.

O pior de tudo é saber que não há culpados nisso. Normalmente é bala perdida que atinge os medos de forma frontal e desperta aquele demônio mais escondido. O kraken que envolve e entristece como se fosse um tentáculo de melancolia sufocando a alma. Clec.

Tudo que se quer é um cafuné, um abraço, um colo, mas isso nunca é encontrado, porque normalmente um gatilho é tratado como besteira, bobagem, mimimi. É assim que funciona a vida cruel, porque o outro normalmente nunca reconhece uma dor, por não saber como o calo alheio aperta. Cada um só sabe de si. É natural que seja assim. Clec.

Assim como é natural que se julguem os sentimentos esparsos com uma ótica mais dura e viril do que seria o próprio autojulgamento. Poucos têm coragem, disponibilidade, indulgência e lealdade de estar ao lado quando se precisa. Há lutas que se lutam sós, mas nem todas são assim. Há aquelas nas quais se precisa de ajuda, e muitas vezes a sensibilidade para oferecê-la quando alguém não consegue pedi-la é tão importante quanto saber não oferecê-la quando não se precisa. Clec.

A verdade é que, quando um gatilho é disparado, não há muito o que ser feito. É uma pequena morte. Sujeita à ressurreições, solidões ou libertações. Quando se está no olho do furacão, tudo que se quer é calmaria. Toda tempestade cansa, às vezes é preciso apenas o nascer do sol. Bum.

Cenas de um Supermercado na Madrugada

Onze e meia da noite. O silêncio é entrecortado por uma música que pretensamente deveria ser lounge mas na verdade varia entre um som muito ruim ou muito bom, com toques de Phil Collins pelo meio. Afinal, Phil Collins é incontestável. Uma noite a mais, outro dia no paraíso. Mentira, é só o supermercado no início da madrugada.

Todos ali são cúmplices. Porque buscam a calmaria e colocam todo o cansaço e frustração de um dia de trabalho no liquidificador daquela terapia que é fazer compras na madrugada. Todos se entreolham complacentes, pois cada um com seu motivo, se sentem protegidos da vida trituradora ali. O esporro que precedeu o silêncio.

Tem aquele que compra as coisas da casa com sua calculadora inseparável, companheira também daquela moça que trabalha checando e comparando preços, como se fosse uma fiscal do Sarney em versão pós-punk. Tem aquela que saiu da ginástica e foi direto pro setor de laticínios e posteriormente vai disputar lugar na fila com a executiva que foi comprar um travesseiro da Nasa, pra ver se cura sua insônia, causada pelo stress e pelas injustiças dos dias das horas justas.

A mãe que aproveita os corredores vazios para ninar seu bebê recém-nascido divide seu espaço com dois faxineiros que lavam o setor de carnes e aproveitam para deslizar pelo piso, emulando o Holiday on Ice e abrindo um sorriso gostoso e sincero. Os casais proibidos, com ou sem aspas, escolhem este horário para andar de mãos dadas sem medo de preconceito ou de serem descobertos. O sorriso sincero de quem ama, seja como for, já diria a elegância de Paulinho.

A indignação do protesto mudo contra o preço do limão, do damasco e do mel, contrastando com a comemoração em aviãozinho daquele que vai comprar a maminha numa promoção daquelas. Ali, naquele microcosmo gelado, oásis no meio da madrugada sem estrelas, um grupo seleto tão díspar quanto cheio de afinidades se encontra.

E como toda regra tem sua exceção, há os insatisfeitos: os caixas, querendo ir para casa, servindo bem para servir sempre, ou melhor, nem sempre, porque é preciso uma folga e madrugada – onde já se viu? – não é lugar para trabalho, ao menos aquele dia, porque eles queriam estar ali, invertidos com aqueles que buscam a terapia das compras, cujo preço é caro, mas pode ser pago à vista, no débito ou crédito.

Duas da manhã. Na fila, aquele momento de redenção, libertação e prisão. Redenção porque a missão finalmente foi cumprida; libertação porque enfim as coisas voltam a seu rumo normal e cotidiano; e, justamente por isso, é uma volta à prisão aberta da vida real. Naqueles minutos que viram horas, a terapia do dia a dia deixa o ser humano mais leve. Talvez a leveza seja uma metáfora para o dinheiro que sai do bolso também. São as cenas de uma madrugada no supermercado. Boa noite. E boa sorte na volta pra casa.

Freundschaften

Não há regra escrita ou verbal sobre como nascem as amizades. Na verdade, pela raridade da situação, nem deve existir qualquer regulamento mesmo. Amigo é algo raro, que merece liturgia e deferência, mesmo sendo informal. É motivo de celebração e brinde, na boa e na ruim, porque não existe meio-amigo.

Normalmente é algo tão intenso que não lembra como se começa uma amizade. Não há aquele momento-chave, ignição, coisa do tipo. Há, sim, a lembrança da data, mas não de quando os laços se estreitam a ponto de construir uma relação de confiança. Brodagem, parceria, camaradagem, companheirismo. Das poucas coisas da vida tão boas quanto sexo, carnaval e água gelada.

Embora algumas pessoas, por tristeza, opção ou paranoia, prefiram os imaginários, fazer amigos é algo muito bom e saudável. Não há medidor de quantidade, mas de qualidade; ter muitos amigos, de diferentes níveis, ter poucos, ter um. Cada um sabe o que basta e o que serve na sua trajetória de vida, mas, como diz o pianista gênio praiano, é impossível ser feliz sozinho.

É sentimento correspondido e correspondência que parte de qualquer lugar. Pina, Pompéia, Laranjeiras, Olinda, na Santa Cecília, em São Bernardo, no Santo Amaro, em Ramos, Casa Verde, Barcelona, Lisboa, Montevidéu, Madalena, nas Vilas Leopoldina, Velha, Mariana, Kosmos, do Alto de Pinheiros ou da Cidade Baixa, de Paris – tuba ou não – e de onde mais vier; que senta e toma parte em mesa de bar, seja baran, real, pavão azul, batidão, tribunal. Que se entende nas palavras cantadas e faladas alto, ou que gritam em silêncio. Porque é assim que é. Sem explicar.

No sorriso de uma criança que acabou de nascer ou na lágrima de um caixão que acaba de fechar, na ampulheta que se move ao sabor do tempo, nos grãos de areia, nossa vida ao sabor do vento. Nas tristezas e alegrias. Na boa e na ruim. Porque não existe meio-amigo.

Ilha

Caminhando entre as inseguranças e as impossibilidades, vislumbrando o futuro e escondendo as cicatrizes do passado, vivendo ou sobrevivendo o presente, a vida segue. Enquanto tenta se olhar no espelho e refletir-se o que é, o que gostaria que fosse, o que não foi. O ser humano é uma ilha cercada de dúvidas.

Oscilando entre mares tormentosos e calmarias momentâneas, se agarrando em postes ou ombros para se salvar dos furacões, consumido pelas perguntas sem respostas e respostas sem perguntas, alimentando a paranóia e a amargura ou simplesmente as descartando ou enfrentando, como um demônio de capa e espada, o ser humano é uma ilha cercada de medos.

Vivendo a melancolia como combustível, lembrando da frase que uma cronista escreveu, de que a tristeza é só um posto de gasolina na estrada da felicidade, tentando colocar o vagão da vida nos trilhos, ou descarrilando de vez em quando, porque o risco às vezes vale a pena, mesmo que ele seja apenas paz, e na busca pelo reencontro de si mesmo, o ser humano é uma ilha cercada de anseios.

Nas palavras truncadas que se enrolam nas cordas vocais, no disse que não se disse, no que queria se falar, mas se calou, do que não devia ter sido dito e jogou fora um brilho, no silêncio que diz tudo, no discurso que diz nada, na tentativa de se expressar – conseguindo ou não – o ser humano é uma ilha cercada de pontos, vírgulas e parágrafos.

No retrovisor que mostra o que ficou pra trás, no farol que ilumina o que vai na frente, nos amigos que viraram estrelas, nos amigos que amparam e escoram, na solidão acompanhada ou simplesmente na solidão que é só, na esperança do sorriso de criança, que faz lembrar que a alegria existe, basta saber procurar. O ser humano é uma ilha cercada de saudades.

Coxinha

O Brasil é pródigo em injustiças. Uma delas, das mais flagrantes, vitimiza a coxinha. Não falaremos aqui do cabuloso e pejorativo adjetivo que qualifica pessoas xexelentas, porque blogs diversos já opinaram sobre isso, inclusive determinando os tipos de coxinha. O que está em pauta é o salgado mais nobre entre os salgados, o mais saboroso, o que merece mais respeito.

A massa crocante baseada em farinha de trigo, juntamente com o recheio malemolente de galinha, é das combinações mais matadoras da baixa gastronomia. Algo como Lennon/McCartney, Jagger/Richards, Sullivan/Massadas, Claudinho/Buchecha. A coxinha-arte, coxinha moleque, coxinha frita na hora e me voy hoje é artigo raro no mercado, mas ainda é possível se encontrar exemplares crocantes e saborosos por aí, nas andanças da vida. O aumento de lanchonetes gourmets e a invasão de pastelarias que desvalorizam o salgado nobre, faz com que a coxinha de raiz esteja ameaçada de extinção, mais ou menos o que o pardal fez com o tico-tico.

Pra piorar a situação, ultimamente a coxinha vem sendo seviciada por empresários inescrupulosos do ramo de alimentos da baixa gastronomia, que preparam o salgado antes e depois querem esquentá-lo no micro-ondas. Por muito menos do que isso Jesus foi crucificado, por exemplo. É das coisas mais deprimentes ver um salgadinho rançoso, dormido, moribundo, ser requentado. Deveria ser crime de falsificação ideológica.

Jamie Oliver que me desculpe – aliás, tem que desculpar porra nenhuma não. O cara não gosta de quindim, não dá pra respeitar quem não gosta de quindim – mas a coxinha deveria estar no cardápio escolar pelo menos uma vez por semana. E deveria ser acompanhada com uma cartilha para ensinar a comer o alimento. Afinal, como diz o grande filósofo Mr. Catra, bumbum não se pede, bumbum se conquista. A coxinha deve ser comida pelo bico, não pela bunda.

A língua portuguesa tem um sem número de xingamentos. Em vez de ofender aquele cara mané e babaca de coxinha, respeite a iguaria nobre da baixa gastronomia. E não deixe a coxinha morrer, não deixe a coxinha acabar. Muitas barrigas adolescentes foram esculpidas por causa do salgadinho. É necessária a resistência.

Sete

Sete é conta de mentiroso. Se eu contar, ninguém acredita. Em 1986, quando eu era menino pequeno, bati setenta e oito pênaltis contra um Joel Bats imaginário. Eu sou Arthur, usava a camisa 10 e estava no meu direito. Não errei nenhum e não tenho culpa se o goleiro era imaginário, isso é problema dele. Moleque, estava com vergonha daquela derrota.

Vergonha besta, aliás. Perder de cabeça erguida dói mais do que estar entregue, mas é muito mais valoroso. E aprender a saber perder é lição de vida, da vida e para a vida. Depois vi coisas piores, como o trem fantasma de 1990, o time mais feio do que o Russo do Chacrinha – e olha que tinha bons jogadores.

Vi finalmente o Brasil ser campeão duas vezes – sem pedir “joga pra mim” – e ainda vi a seleção perder uma final com um vareio de bola que, se vocês soubessem a verdade ficariam enojados. [A verdade: Zidane comeu a bola, humilhou o Brasil e a França deu um chocolate. Foi um nojo de atuação]

Depois veio a fase dancing days. Eu torço para um time cujo oba-oba é o segundo santo padroeiro, atrás apenas de São Judas Tadeu. De fuzarca, flamenguista entende. Mas a seleção foi insuperável. Em 2006, o Brasil fez de Weggis uma micareta, tratou a Copa com uma soberba medonha, jogou com um ataque de reis momos [craques, mas reis momos], foi passando dos adversários com uma burocracia digna de inspeção do Detran e parou na França, que tinha um time envelhecido, mas atropelou o Brasil com igualdade, liberdade e fraternidade [do Roberto Carlos, que bobeou na marcação do Henry].

Aí, em 2010, veio a fase dos super-heróis, dos justiceiros, da raiva contra o sistema. O Brasil três acordes de Dunga queria soar como um punk furioso, desafiando a poderosa mídia e o establishment. Foi enfileirando vitórias com um futebol eficiente e até melódico, como se Bad Religion fosse. Jogava bem, no feijão com arroz e fazia sucesso, como um som dos Ramones. Até que contra a Holanda pareceu o Sid Vicious tocando baixo e, bem, desafinou. Amanheceu, pegou a viola, botou na sacola e foi viajar. Mais uma eliminação.

Em 2014 tudo estava a contento. Copa em casa, clima de festa, gigante pela própria natureza, o hino à capella. Coisa linda. [Pausa: aliás, o hino à capella é algo lindo mesmo]. No comando, Felipão, o técnico tão moderno quanto vinil e fusca [Pausa nº 2: muita gente gosta de vinil e fusca, mas a verdade é que em termos de praticidade, são ultrapassados e muito pouco funcionais. É. Pois é.] e Parreira, o maior Forrest Gump da história do futebol brasileiro, enganando todo mundo com seu linguajar castiço e suas aparições na TV. Mesmo assim, a gente acreditava. A mística. Essa muleta que, como a fé, move mundos e montanhas. A danada da mística.

E a mística fez o juizão dar aquela mãozinha no jogo contra a Croácia. Ochoa, no entanto, defendeu a mística e tudo mais que foi pro gol contra o México. Contra Camarões, a mística foi poupada e, jogando bola, uma sacolada no pior time da Copa. Mata-mata, chi-chi-chi, le-le-le, cha-cha-cha, e tome pressão, bumba meu boi, gol de lá, gol de cá, prorrogação dramática, bola na trave, Julio César e passou.

E avançou para as quartas contra a Colômbia, e ganhou, e tudo dava certo quando a mística chamada Neymar se quebrou. E sem o craque, sem o lampejo, sem o capitão chorão que joga bola pra cacete, o time de bons jogadores, mas sem esquema, ficou à imagem e semelhança dos seus comandantes. Tinha como dar certo?

Não. Não tinha. Mas a gente acreditou. A gente sempre acredita. Torcedor e a mística, esse caso de amor impossível. Futebol é como suruba: se você não faz, toma. E o Brasil tomou um gang bang, com direito a bukkake. Uma sevícia, uma humilhação, um esculacho, um esmerilho. A Alemanha desfilou no gramado enquanto o Brasil encolheu.

A torcida nem desesperada ficou. Eu mesmo só fui acreditar nos sete gols no dia seguinte, dirigindo. Uma quase morte. Tomar sete gols porque jogamos no esquema tático “vamo que vamo” é de lascar. A gente sempre acredita, até que uma vez na vida é feito de trouxa. Se eu contar pra quem não viu, ninguém crê. Se um dia disserem que sete é conta de mentiroso, eu vou negar. Gol da Alemanha.