A gente se acostuma

“A gente se acostuma”. Esta é uma frase dita de forma vulgar várias vezes durante a vida. Vamos nos acostumando com tudo, deixando as coisas passarem no ritmo incessante do relógio do tempo.

A gente se acostuma com o nascer do sol dos dias de primavera e com o por do sol dos dias de verão, com os mergulhos em praias paradisíacas e trilhas na montanha desafiadora, com o barulho da chuva que conforta e relaxa e com o vento gostoso no nosso rosto, até tudo virar saudade.

A gente se acostuma com os grandes amores e os desamores, os afetos e desafetos, os amigos que se perdem na beira do caminho, os que não eram tão amigos assim, com o perdão e o orgulho, com os sim e os não, com os sorrisos mais bonitos e as lágrimas mais doídas, até qeu tudo vire nostalgia, arrependimento ou um álbum de retratos.

A gente se acostuma com as pequenas vitórias a ponto de não comemorá-las mais, com um sorriso amarelo por mais uma meta batida, e com as grandes derrotas, aquelas que nos derrubam com violência, até pensar simplesmente que a tempestade vai passar e que a noite não dura para sempre.

A gente se acostuma com as quedas e os golpes da vida: o martelo cruzado, o rabo de arraia, o ippon, o yuko, o wazari e até mesmo o koka, que não existe mais no judô. Tomba, lambe as feridas, sacode a poeira.

Mas a gente nunca se acostuma a levantar. Cada vez que se levanta é uma cicatriz diferente. Algumas perfeitas, outras com pus, mas que ficam marcadas na alma como tatuagem e viram troféus ou traumas, quando não são os dois ao mesmo tempo.

E aí, quando a gente se acostuma a viver no automático, a ter mais preocupação do que esperança, mais tristeza do que alegria, porque não reconhece os momentos felizes, a gente lembra que não se acostuma a se acostumar. È neste momento que a gente deixa de duvidar da gente. E volta a lutar.

Anúncios

Moinhos de Vento

Uma andorinha só não faz verão. Por isso são recrutados aliados reais e construídos inimigos imaginários, como sparrings, antes de lutar contra os reais, quando houver tempo e/ou coragem. Como num romance de cavalaria, andante, errante. Contra tudo, contra todos, o contrário, contra quem?

Cada um é como Deus fez, às vezes muito pior. Os moinhos de vento que prenunciam os furacões interiores sopram fortes, valentes e imponentes. Os temores com os quais se andam, os temores que dizem quem são seus portadores. A caravana da vitimização que muitas vezes parte barulhenta, em contraponto ao comboio silencioso da vilanização. Melhor caminhar com o sapato das dores e delícias de ser o que é.

Há um momento, entretanto, em que os moinhos se calam e outras histórias se contam. Por quem os sinos vão dobrar? Do rosário de pecados que habitam a armadura de rancor e insegurança, entre a soberba e a ingratidão, a guerra e a confusão mostram os inimigos reais e os aliados imaginários.

Cada um é filho de suas obras e não há livro da vida tão ruim que não tenha algo bom. Não há quem saiba mais dos erros e acertos do que o espelho, o mais poderoso juiz e censor. Enquanto ele não é confrontado, que se esperem os sinos e se enfrentem os moinhos de vento, acompanhado da voz da consciência, que algumas vezes é muda, e em outras fingimos não ouvir. Somos todos Dom Quixote.

Goleiros

Embora todo mundo queira fazer gols como atacantes, distribuir o jogo como meio-campistas e, nos momentos mais libertadores, dar um bico para o alto, como um zagueiro-zagueiro, a verdade inexorável é que todos somos goleiros. Sim, todos somos solitários como o guarda-redes.

Na pequena área de nossa própria consciência, onde a grama não nasce, estamos isolados, vendo o jogo se desenrolar. Naqueles minutos onde se joga a partida do destino, muitas vezes somos acionados. E fazemos defesas espetaculares, salvamos bolas impossíveis, somos lembrados como craques, reverenciados como estrelas, até que falhamos.

Falhamos miseravelmente. Aquela bola entre as pernas, o montinho artilheiro, o golpe de vista mal dado, que nos fazem sentir vergonha de nós mesmos. Já não bastavam aqueles chutes onde a coruja dorme, indefensáveis, que temos de engolir e aceitar. Os piores momentos são aqueles defensáveis. E aí toda aquela mística cai por terra.

Naqueles momentos onde a solidão se acentua e nós estamos ali, estirados, olhando para a rede. Levantamos e todo o time balança a cabeça negativamente. Quer dizer, todos, não. Ainda há os mais desesperados, que colocam a mão na cabeça. E uns poucos dão aquele tapa nas costas, dizem “levanta!”. E nós, goleiros de nosso próprio jogo, levantamos. Não há outro jeito

A verdade é que poucos nesta vida serão chamados de mito, com aquela moral toda e os defeitos sendo travestidos de perfeccionismo. Outros tantos terão um apelido pomposo juntando substantivo e adjetivo, como “tanque malaio”, “danúbio  azul”, “aranha negra” ou algo do tipo. Surgirão aqueles que terão seu nome gritado com um apelido não-pejorativo, como “puta que pariu”. Ainda haverá uns escolhidos entre nós que terão nome de santo – e querem o nome mais bonito. Talvez seja preciso amar os goleiros como se não houvesse amanhã.

Há aqueles que pegam todas as bolas impossíveis, mas deixam passar as possíveis. Clemência. Alguns não aguentam encarar o problema, qualquer que seja ele e preferem se atirar nos trilhos de trem da vida; outros preferem matar e enterrar o que julgam ser dificuldade, para depois enfrentar as graves conseqüências. Cada um com sua escolha, sua trilha, seu caminho, seu vaticínio.

Quando o cronômetro começa a correr, a verdade é que é preciso evitar todos os gols possíveis, assimilar os impossíveis e saber se perdoar quando falhar. A falha, assim como a morte, é inevitável. Então, embora seja necessário lamentar, não se pode transformar o lamúrio em canção de uma nota só. È preciso seguir até o apito final, porque de onde surge o vacilo também brota a redenção. O jogo é jogado. E todos somos goleiros em nossa vida.

O Sustentável Peso de Ser

A vida não é fácil. Entretanto, na maioria das vezes, ela é inocente. Em grande parte dos casos a dificuldade parte de fora pra dentro, descontados os casos fortuitos e de força maior. Normalmente as decisões, escolhas e caminhos são guiadas justamente por aquele que sofrerá as consequências e colherá os ônus e bonus do processo.

“Ônus e bonus”. Heranças da malfadada linguagem corporativa, que migraram e se aboletaram como pardais nas gôndolas de auto-ajuda, como inexoráveis clichês. A expressão tem o poder de sintetizar um monte de sensações e suas nuances, as prensando para consumo rápido e sem argumentação. Talvez seja melhor assim. Talvez.

No jogo de cartas marcadas entre o ser humano e sua personalidade, cujo espelho invisível da autocrítica é o tabuleiro, muitas vezes é necessário se reinventar, ser coringa e canastra suja de si mesmo. A vida não é pôquer, tudo ou nada; tampouco é sueca, onde se pode embarcar na melhor opção e lançar trunfos de vez em quando. A vida blefa, grita, silencia, combina, trapaceia. Truco.

Se tem esperança de que? De um caminho leve, sem percalços, com a brisa inocente perfumada com flores do campo e a voz jovial do locutor anunciando um comercial de desodorante ou de margarina. O caminho normalmente não é assim. Não é uma estrada sem destino e sem nome, na qual se acelera e se ouve Lynyrd Skynyrd no rádio. Normalmente há buracos, atribulações e acidentes, alguns letais, nos quais romances, lembranças e expectativas jazem mortas no chão.

Se tem esperança de? De superar, de ganhar destreza dirigindo o próprio veículo que é o destino. Porém, ser motorista de si mesmo necessita de revisão, habilidade, cuidado e, mesmo assim, há a possibilidade ser surpreendido pelas mudanças climáticas das relações interpessoais ou com seu próprio ego. Não existe pista mais desafiadora do que nossa própria idiossincrasia. Eau Rouge. Se tem esperança?

Há momentos em que sentar no chão e olhar para o teto, mirando o nada, é a melhor solução. Outras vezes, a sensação de sufocamento é tamanha que a impressão é de queda livre, sem saber onde é o chão de nossa própria angústia. A verdade é que ser parece insustentável, mas não é. E se o filósofo grego diferenciava a leveza e o peso, este sendo ausência daquela, se enganou redondamente.

Leveza e peso andam de mãos dadas, como namorados existenciais. Muitas vezes, por convenção ou auto-imposição, há a necessidade e/ou vontade de ser leve, flutuar, andar em paz. No fim das contas, por maturidade ou por não haver opção, se convive com a dor, com os espinhos, como se eles tatuassem a alma para que finalmente se pudesse desnudar a leveza. Não existe o caminho da verdade; apenas caminhos, de verdade.

A leveza do ser talvez seja insustentável, mas o peso de ser é perfeitamente sustentável. É preciso conhecer, se
reconhecer, seguir em frente. O espetáculo do próprio sofrimento precisa apenas de uma pessoa na platéia: de si mesmo. Para que a mariposa do peso se torne a borboleta da leveza. Para que se siga em frente. Respira.

O Povoado

Aquele barulho diferente e um sacolejo mais insinuante que a nova passista globeleza. O pneu furou. O pneu, no caso, era de uma caminhonete. Furou, no caso, na margem da BR-116, a poucas horas do pôr-do-sol. Ao olhar para o lado esquerdo, apenas o horizonte. Ao olhar para o lado direito, um povoado simples.

Simples, mas prestativo. Encostando o veículo à procura de um borracheiro. Para um sujeito, cara de camponês, gente da pele curtida pelo sol. Eloquente, se dispõe a ajudar e chama o borracheiro, “o melhor da região”, ele diz. E o profissional chega lá e analisa o que houve. E era um furo grande, e precisava vulcanizar, e demoraria uma hora, talvez duas. Preço combinado, tudo certo. Um vai, outro fica ao lado do veículo.

Carro fechado, naquele pequeno povoado, hora de observar ao redor. Uma parada de ônibus com um pequeno logotipo onde se lia “Beberibe, eu te amo”, para proteger do sol os que precisam se locomover. Ao fim da tarde, ali, isolado, aparentemente não há muito o que fazer. Sinal de telefone, inclusive, não há.

Sem internet ou dados, a sensação é de solidão? Ledo engano. O camponês que buscou o borracheiro se apresenta, conta da formação técnica em mecânica, e que gosta de se embrenhar naquele local que mistura caatinga com litoral com pouquíssimos quilômetros de distância.

Logo chega mais um habitante, que conta que nos tempos dos avós tinha muita onça parda por ali. Sim, suçuaranas. E que hoje sumiram, mas ainda tem um tipo de cervo, algumas jararacas, as cascavéis já estão quase extintas.

E ali, atrás do povoado, tem um açude, onde implantaram tilápias e tucunarés, que se adaptaram bem, mas brigam muito, porque tucunarés são territorialistas e matam as tilápias. E ainda dificultam a pescaria, porque são inteligentes ao extremo.

Há uma igreja no meio da praça. Talvez seja uma capela. A falta de catolicismo impede saber a diferença entre uma e outra, mas é uma construção linda, parece uma casa de bonecas, com um santo em sua entrada. E um espaço para os guris, aproveitando que o sol está terminando o expediente, começarem a armar o futebol.

E um deles, o mais loquaz, olha e diz: “moço, vamos jogar bola?”, tirando um sorriso daqueles do fundo da alma e dando uma vontade quase incontrolável de dobrar as calças, tirar o sapato social e assumir uma das posições daquela pelada.

Ao mesmo tempo, jovens se reúnem na frente do povoado, mas não é nenhum motivo religioso ou festa na cidade. Estão esperando o ônibus para estudar. E não, não é colégio ou supletivo. É faculdade, na cidade ali perto. Alguns fazem direito, outros pedagogia e ali falam dos sonhos e contam que criaram um grupo de whats app. Mas como, se não há sinal telefônico? Rádio, wi-fi, modernidades.

E oferecem a senha da rede para ver os emails e passar recados. Mas não, não é preciso. Estar desconectado naquela hora é excelente. Esquecer o mundo para lembrar de si. E informam que naquela casinha azul vende sorvete artesanal. E o preço é baratinho. E tem de nata goiaba, uma combinação tão deliciosa e improvável quanto caatinga e litoral, com nacos de goiabada em meio à nata. Sabor que fica na memória.

O por do sol se aproxima pelas margens da BR-116, preguiçosamente, mesclando-se com a luz dos faróis dos veículos que rasgam aquela estrada. O tempo passa rápido e já vem o borracheiro com o pneu consertado – “muito trabalho, teve que vulcanizar” .

Enquanto ele coloca o pneu de volta, as despedidas, como se fossem velhos conhecidos. Promessas de um dia passar por lá de novo e comer um tucunaré no restaurante da moça, que por sinal é irmã do borracheiro, que namora com o cara que falou das suçuaranas, e ali todo mundo se conhece.

E naquele momento, conhecer aos outros é reconhecer a si mesmo. Agora entendo a mensagem da parada de ônibus.

Enquanto Vocês Dormem

Enquanto vocês dormem, eu penso. Penso no futuro de vocês. Qual caminho vão seguir? Uma quase entrando na vida adulta, outro começando a dar os primeiros passos. Onde o destino vai lhes levar? E como vocês vão moldar o destino?

Enquanto vocês dormem, tenho dúvidas, me arrependo, renovo as certezas, ergo a cabeça, choro e sorrio. Ser por vocês é ser por mim, e nunca é obrigação, apenas prazer e aprendizado. Aprender com prazer é uma dádiva, basta humildade, discernimento e boa vontade.

Enquanto vocês dormem, aprendo receitas de papinhas nutritivas, leio sobre equações de segundo grau ou funções, atualizo a conta do Netflix – “pô, não tá rodando” – e faço planos mais ou menos mirabolantes para realizá-los quando vocês acordarem.

Enquanto vocês dormem, me sinto protegido, os dois se combinam em uma defesa inexpugnável: capa e espada, tática e estratégia, amor e cuidado, sorriso e abraço. É o que move, onde posso tirar a armadura e descansar com serenidade.

Enquanto vocês dormem, o presente e o futuro se entrelaçam. Ser mais eu, para ser vocês. E eu fico divagando sobre inúmeras coisas que só fazem sentido pra mim, porque vocês descansam, me dando uma imensa sensação de missão cumprida em mais um dia nesta indústria vital. E nesse semblante terno e plácido, encontro meu repouso. Shhhh, vocês dormem.

Enquanto vocês dormem, eu sou paz. E quando vocês acordam, sou também. Com vocês, tudo é pleno.

Gatilho

Não se sabe muito bem como ocorre, mas ocorre. Sem mais nem menos, uma frase perdida no meio de pensamentos, dita com a melhor das intenções – ou não – dispara o gatilho. Na roleta russa emocional, é apenas uma questão de sorte incontrolável saber se há uma bala ali. Clec.

E quando ele é disparado, os pensamentos que estão ali presos, domados e represados se soltam, insolentes, passeando pela alma como se fossem donos e senhores da razão. Dominam todos os movimentos e as reações se tornam imprevisíveis. Uns se flagelam e machucam os seus; outros se calam e sofrem sós; alguns tentam buscar ajuda, mas não conseguem se expressar, e quem consegue se expressar normalmente encontra um muro com uma piada na hora errada em vez de um singelo e simples abraço. Clec.

O pior de tudo é saber que não há culpados nisso. Normalmente é bala perdida que atinge os medos de forma frontal e desperta aquele demônio mais escondido. O kraken que envolve e entristece como se fosse um tentáculo de melancolia sufocando a alma. Clec.

Tudo que se quer é um cafuné, um abraço, um colo, mas isso nunca é encontrado, porque normalmente um gatilho é tratado como besteira, bobagem, mimimi. É assim que funciona a vida cruel, porque o outro normalmente nunca reconhece uma dor, por não saber como o calo alheio aperta. Cada um só sabe de si. É natural que seja assim. Clec.

Assim como é natural que se julguem os sentimentos esparsos com uma ótica mais dura e viril do que seria o próprio autojulgamento. Poucos têm coragem, disponibilidade, indulgência e lealdade de estar ao lado quando se precisa. Há lutas que se lutam sós, mas nem todas são assim. Há aquelas nas quais se precisa de ajuda, e muitas vezes a sensibilidade para oferecê-la quando alguém não consegue pedi-la é tão importante quanto saber não oferecê-la quando não se precisa. Clec.

A verdade é que, quando um gatilho é disparado, não há muito o que ser feito. É uma pequena morte. Sujeita à ressurreições, solidões ou libertações. Quando se está no olho do furacão, tudo que se quer é calmaria. Toda tempestade cansa, às vezes é preciso apenas o nascer do sol. Bum.

Freundschaften

Não há regra escrita ou verbal sobre como nascem as amizades. Na verdade, pela raridade da situação, nem deve existir qualquer regulamento mesmo. Amigo é algo raro, que merece liturgia e deferência, mesmo sendo informal. É motivo de celebração e brinde, na boa e na ruim, porque não existe meio-amigo.

Normalmente é algo tão intenso que não lembra como se começa uma amizade. Não há aquele momento-chave, ignição, coisa do tipo. Há, sim, a lembrança da data, mas não de quando os laços se estreitam a ponto de construir uma relação de confiança. Brodagem, parceria, camaradagem, companheirismo. Das poucas coisas da vida tão boas quanto sexo, carnaval e água gelada.

Embora algumas pessoas, por tristeza, opção ou paranoia, prefiram os imaginários, fazer amigos é algo muito bom e saudável. Não há medidor de quantidade, mas de qualidade; ter muitos amigos, de diferentes níveis, ter poucos, ter um. Cada um sabe o que basta e o que serve na sua trajetória de vida, mas, como diz o pianista gênio praiano, é impossível ser feliz sozinho.

É sentimento correspondido e correspondência que parte de qualquer lugar. Pina, Pompéia, Laranjeiras, Olinda, na Santa Cecília, em São Bernardo, no Santo Amaro, em Ramos, Casa Verde, Barcelona, Lisboa, Montevidéu, Madalena, nas Vilas Leopoldina, Velha, Mariana, Kosmos, do Alto de Pinheiros ou da Cidade Baixa, de Paris – tuba ou não – e de onde mais vier; que senta e toma parte em mesa de bar, seja baran, real, pavão azul, batidão, tribunal. Que se entende nas palavras cantadas e faladas alto, ou que gritam em silêncio. Porque é assim que é. Sem explicar.

No sorriso de uma criança que acabou de nascer ou na lágrima de um caixão que acaba de fechar, na ampulheta que se move ao sabor do tempo, nos grãos de areia, nossa vida ao sabor do vento. Nas tristezas e alegrias. Na boa e na ruim. Porque não existe meio-amigo.

Gabo – Ano Um

[música incidental – “Gabriel”, de Beto Guedes]

“É só de ninar
E de desejar que a luz do nosso amor
Matéria-prima dessa canção
Fique a brilhar…”

Oi, filho. Doze meses. Muito tempo se passou desde a primeira vez que peguei você nos braços, meu amor. Você nasceu grande, mas pra mim era muito miudinho. Eu, ogro e estabanado, morrendo de medo de quebrar você, enquanto a pediatra te pegava com a desenvoltura típica de especialista. “Corta o cordão, pai!” E eu lá, com aquela tesoura cega, querendo romper aquele vínculo físico e ao mesmo tempo morrendo de medo de te machucar. E agora você taí, andando…

Você é muito amado meu filho. Amado pelos seus tios, e, acredite, você tem tios pelo mundo inteiro. Tios de sangue, tios de alma, tios de afeto, tios transbordando carinho; muito amado pelos seus padrinhos, que são pessoas fabulosas, almas boas; muito amado pela sua Tia Nanda, que é um capítulo à parte, porque é sua caçamba, escudeira, guardiã, quase anjo da guarda; muito amado pela sua irmã, esse arco multicolorido que te protege como se você fosse extensão dela – e talvez seja mesmo – e ainda te presenteou com um bicho de estimação que fica montado em cima do seu carrinho fazendo vigília [isso enquanto não dorme, claro].

“E é pra você
E pra todo mundo que quer trazer assim
A paz no coração
Meu pequeno amor…”

Pela sua mãe, o amor nem conta, filho. Ele transcende. Você, que é ruivo como ela, tem muito dos trejeitos. Quando você nasceu, eu disse que éramos imbatíveis. E continuamos sendo imbatíveis. Hoje, eu e sua mãe não estamos mais juntos, mas por você e sua irmã sempre seremos família, um só, inquebrantáveis. O tempo assenta as coisas, ameniza as mágoas e faz com que boas lembranças retornem e surjam. Hoje, tudo é muito recente, mas há de melhorar. Você deve ter orgulho da pessoa espetacular e incrível que é sua mãe, alma boníssima, desprovida de qualquer paranóia ou maldade. Não poderia ter mãe melhor, guri. Vá por mim.

“E de você me lembrar
Toda vez que a vida mandar olhar pro céu
Estrela da manhã…”

Por você e por sua irmã, muitas vezes eu abri os olhos e levantei, carinha. Porque às vezes morremos de medo, mas lembramos que, por sobrar medo, não falta coragem. Não adianta fugir, filho, nem falar e resmungar aos cantos, soltando ao vento nossas tristezas e temores, como moleque covarde. A gente é sujeito homem, lembra? A gente encara de frente. Às vezes passam um monte de besteiras na cabeça, a tempestade é enorme, o afogamento é quase certo, mas o amor como o de vocês são as bóias que fazem flutuar. E eu, filhote, só tenho a agradecer a ti e tua irmã.

“Meu pequeno grande amor
Que é você, Gabriel
Pra poder ser livre como a gente quis
Quero te ver feliz”

Neste primeiro aniversário, Gabriel, parabéns. E que seja sempre suave, mesmo nos momentos duros, que virão, porque eles é que te forjam o caráter. Sempre sereno. Com amor, saúde, alegria e felicidade. Meu Gabriel, Gabo, Gabão, Gabiroba, Ziriguidum, Ziriga, Riga [lembra do grito, filho? Aquele que só papai faz, e que te faz sorrir quando você tá com febre?] e tantos apelidos que virão. Sua mãe, seus tios, sua irmã sempre estarão ao seu lado. Papai também. Você tem pai. E um pai que te ama muito. E que estará ao seu lado em todos os bons momentos, até a hora de seguir em frente e você continuar seu legado, voando só. Que Deus te abençoe. Nós somos de infantaria e mar. Não esqueça. Quero te ver feliz. Sempre feliz. Nesta semana, Feliz Aniversário, o seu primeiro. Neste e em todos os outros momentos, eu amo você.

Infantaria e Mar

Filho, hoje você conheceu a praia. Parece algo comum e corriqueiro, mas pra nós não é assim. As pessoas talvez nos olhem estranho, porque pra elas praia é diversão. Elas se sentem bem na praia, elas gostam de estar ali, naquele ambiente, respirando aquele ar da maresia, por recreação. Nós, não. Ali, pra nós, é sempre um ritual.

Hoje, você é muito novo pra entender isso, guri, mas um dia, você, quando estiver saturado, carregado e cansado do cotidiano, irá à praia. Porque é da sua natureza, assim como da minha. Nosso sangue é de água salgada, ali é nosso habitat natural. Não é aquela balela de ser peixe, ou algo do tipo, é algo que transcende isso. É espiritual.

Ao ver você dar passos, amparados, para ir ao encontro do mar, eu reparei no seu rosto. Normalmente bebês choram, mas você não fez isso. Primeiro reconheceu o piso fofo da areia, depois, calmamente, foi se encaminhando pro mar. Quando tocou na água, resmungou – acredite, isso é uma característica genética, bem mais minha do que da sua mãe, não se assuste – mas logo se adaptou.

A água do Nordeste é morna, mas não pense que a vida será sempre mansa assim. Há lugares que a água será geladíssima. É uma metáfora pra vida, filhote: mesmo que a água pareça desafiadora, não se furte a mergulhar.

Aliás, falando em água, e falando em mar, nunca se esqueça: gente como a gente nunca sai de costas pro mar. A gente sai e olha pra ele, em reverência. E agradece. Porque o mar é acolhedor, mas não tolera desaforo. Só morre no mar quem sabe nadar. A arrogância no oceano é imperdoável. Na vida, se demora mais pra cobrar a conta, mas ali, na imensidão azul, ela vem rápido com direito a gorjeta. Convém nunca abusar.

E você saberá disso, no devido tempo. Como hoje, depois de ter receio, soube onde estava pisando, depois reconheceu onde estava nadando e abriu um sorriso abusado. Se divertiu nos braços dos seus, tomou uma água de coco e voltou pra casa feliz.

Porque gente como nós, meu filho, não trata a praia como diversão ou como um ambiente diferente. Gente como nós é a praia e faz parte dela, assim como ela mora na gente. Porque nós, guri, somos feitos de infantaria e mar.