Das Boas Almas

Daqueles dias que se quer apenas deitar na cama e olhar para o teto. Pensar em flashbacks naquilo que se foi e criar o roteiro daquilo que se quer ser, esquecendo por alguns instantes do que se é. Aqueles minutos que servem como panacéia, a cura indolor, como se fossem o analgésico cavalar ou o riff de guitarra.

Contemplar aquelas coisas sem valor que quase ninguém vê, a chuva que respinga na janela, o sorriso vagabundo do cachorro vira-lata, aquela música daquela banda que você tinha esquecido que existia, tocando aquele refrão que ninguém conhece mas é sensacional.

Escrever confissões que ninguém vai ler, fechar os olhos e sonhar de forma aleatória, apenas para acordar com a boa sensação de estar revigorado. Quando gestos valem mais do que palavras. Quando até a ausência deles vale bastante coisa.

Porque, por mais que se pareça só, nunca se está desamparado. Sempre haverá a palavra de conforto, a mão amiga, o abraço de consolo. As boas almas que nos pajeiam e nos rodeiam. E, mesmo nos momentos mais difíceis, quando tudo parece desmoronar, o refrão daquela música da banda que você tinha esquecido vai ecoar. E você vai sorrir. “If it wasn’t for the good souls, life would not matter…” *

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“Se não fosse pelas almas boas, a vida não teria importância”, de Starsailor em “Good Souls”

Calçadão

O tempo voa. E quanto mais velho se fica, mais rápido ele corre. Encontrar o que nos deixa saudoso, passear onde se nasceu e criou, conhecer novos lugares, criar e relembrar bons momentos e vivenciar novas coisas. O que se leva da vida são sorrisos. Sorrisos, carinhos e respeitos.

Naquela caminhada pelo calçadão da vida, observar o molejo malemolente das garotas andando na direção contrária, quase dando um torcicolo no observador. Conversar sobre as memórias das mesas de estudante, dos porres inesquecíveis – menos para quem bebeu – do presente e dos planos pro futuro. Cultivar os amigos antigos, fazer novos e manter sempre o papo bom, o sorriso fácil, a solidariedade presente.

Entre aqueles milhares de metros, a vontade de dar um mergulho. Que é subjugada pelo sol gaiato, que teima em se esconder, apresentando um vento frio. A praia é trocada pelo chopp. E dentre as coisas inigualáveis da vida, o choppinho é das mais únicas.

Depois de algumas tulipas e análises pertinentes sobre o nada, muitos sorrisos, muitas saudades. No calçadão desta vida, vamos caminhando com quem nos ensina, nos faz bem, nos trata bem. E vamos deixando para trás, sem olhar no retrovisor, aquilo que não nos apetece. Só se tira da vida o que se investe nela. Vai mais um chopp aí?